- Introdução
- Capítulo 1 As origens indígenas e a ocupação pré-colombiana
- Capítulo 2 A chegada dos portugueses e os primeiros assentamentos
- Capítulo 3 O ciclo da borracha e a exploração econômica
- Capítulo 4 Imigração e transformações demográficas no século XIX
- Capítulo 5 A criação do Território de Rondônia e suas fronteiras
- Capítulo 6 Movimentos políticos e a luta pela emancipação estadual
- Capítulo 7 Reformas agrárias e conflitos fundiários
- Capítulo 8 Impactos ambientais e políticas de conservação
- Capítulo 9 Diversidade cultural e direitos dos povos indígenas
- Capítulo 10 O papel do Exército na expansão e desenvolvimento
- Capítulo 11 Industrialização e mudanças econômicas no século XX
- Capítulo 12 Educação e políticas sociais na região
- Capítulo 13 Infraestrutura: transporte, comunicação e conectividade
- Capítulo 14 Saúde pública e iniciativas de combate às endemias
- Capítulo 15 Urbanização e crescimento das cidades principais
- Capítulo 16 Integração regional e construção da identidade local
- Capítulo 17 A Amazônia e a relevância ecológica de Rondônia
- Capítulo 18 Atividades econômicas: agricultura, mineração e pecuária
- Capítulo 19 Lideranças políticas e governança ao longo do século XX
- Capítulo 20 Políticas nacionais e suas implicações locais
- Capítulo 21 Resistência indígena e pressões modernizadoras
- Capítulo 22 Conservação ambiental e práticas sustentáveis
- Capítulo 23 Patrimônio cultural e desenvolvimento turístico
- Capítulo 24 Desafios contemporâneos e perspectivas futuras
- Capítulo 25 Rondônia no século XXI: equilíbrios e transformações
Rondônia
Table of Contents
Introduction
Rondônia ocupa um lugar singular na trama da Amazônia brasileira: um território onde a floresta densa encontra histórias de migração, conflito e adaptação que moldaram não apenas a paisagem, mas também a identidade de seus habitantes. Desde os primeiros povos indígenas que habitaram suas matas milênios antes da chegada dos europeus, passando pelos ciclos de borracha que atraíram trabalhadores de todo o Brasil, até as ondas de assentamento promovidas por políticas de integração nacional, o estado revela um mosaico de experiências que refletem tanto as potencialidades quanto as tensões do desenvolvimento amazônico.
Este livro propõe oferecer uma visão concisa, porém abrangente, da trajetória de Rondônia, desde suas origens pré-colombianas até os desafios e perspectivas do século XXI. Ao invés de se perder em detalhes exaustivos, a obra seleciona os momentos e os processos que foram determinantes para a formação do território, permitindo ao leitor compreender como fatores econômicos, sociais, políticos e ambientais se entrelaçaram ao longo do tempo. A abordagem cronológica é complementada por temas transversais — como a relação com a floresta, os direitos dos povos originários e as transformações da economia local — de modo que cada capítulo ilumine uma faceta diferente da mesma realidade histórica.
O tom adotado é de narrativa acessível, fundamentada em pesquisas acadêmicas, mas escrita para quem deseja entender a região sem precisar de conhecimento prévio especializado. Evitamos o jargão excessivo e privilegiaremos exemplos concretos, depoimentos e episódios que dão vida aos dados estatísticos e às análises estruturais. Assim, a leitura flui como um relato contínuo, onde cada período é apresentado com clareza e senso de proporção, permitindo que o leitor perceba tanto as continuidades quanto as rupturas que marcaram a história de Rondônia.
Ao longo das páginas, o leitor terá a oportunidade de refletir sobre como a exploração da borracha deixou marcas na organização do espaço e nas relações de trabalho; como as políticas de colonização dos séculos XIX e XX reconfiguraram a composição étnica da população; como os conflitos fundiários e os movimentos sociais lutaram por justiça e território; e como as questões ambientais emergiram como centrais nas agendas políticas e sociais contemporâneas. Essa visão integrada ajuda a perceber que a história de Rondônia não é apenas um registro de eventos passados, mas um espelho dos desafios atuais de sustentabilidade, desenvolvimento e respeito à diversidade cultural.
Embora o livro siga uma estrutura dividida em capítulos que abordam temas específicos — desde a ocupação indígena até a urbanização moderna, passando pelos ciclos econômicos, a atuação do Exército, a educação, a saúde e a cultura —, a intenção não é apresentar uma lista mecânica de tópicos, mas mostrar como cada aspecto se interconnecta para formar o todo. Dessa forma, o leitor será capaz de traçar linhas de causa e efeito, identificar padrões de mudança e apreciação da complexidade que define a região. Ao final, espera‑se que o leitor saia não apenas com um conhecimento mais sólido sobre Rondônia, mas também com um senso crítico sobre os caminhos que a região pode trilhar no futuro, equilibrando preservação ambiental, justiça social e desenvolvimento econômico.
CAPÍTULO UM: As origens indígenas e a ocupação pré-colombiana
Antes de ser um estado, antes de ter nome de marechal, antes de linhas de ônibus, ruas de Porto Velho e placas indicativas para fazendas, Rondônia era um conjunto de territórios indígenas. Não havia fronteiras traçadas em papel, mas havia caminhos conhecidos, aldeias, roças, cemitérios, áreas de caça, trechos sagrados, pontos de pesca e lugares evitados. A floresta não era um vazio esperando ocupação; era um espaço habitado, lido e administrado por quem conhecia seus sons, cheiros, ciclos e perigos.
A região que hoje corresponde a Rondônia fica no sudoeste da Amazônia, numa posição de encontro. Ao norte e a leste, os rios da bacia do Madeira abrem passagem para o coração da floresta. Ao sul e a oeste, o Guaporé, também chamado Iténez na Bolívia, aproxima o território das planícies benianas e do mundo andino. Entre esses grandes eixos, correm o Ji-Paraná, o Jamari, o Machado, o Pimenta Bueno e muitos outros cursos d’água menores. Para quem olha de longe, isso parece apenas geografia. Para os povos antigos, era estrada, mercado, calendário e memória.
A ocupação humana da Amazônia começou muito antes da chegada dos europeus. Em vários pontos da bacia amazônica, há indícios de presença humana com mais de dez mil anos. Em Rondônia, as evidências diretas mais abundantes pertencem a períodos mais recentes, especialmente aos últimos milênios, quando a cerâmica, as terras escuras, os vestígios de roça e os sítios arqueológicos se tornam mais visíveis. Isso não significa que antes não houvesse gente. Significa apenas que alguns modos de vida deixam rastros mais fáceis de reconhecer do que outros.
Os primeiros habitantes não precisavam de mapas impressos para se orientar. O relevo, as nascentes, as matas de bambu, os ipês em flor, os barrancos dos rios e a direção dos ventos bastavam. A floresta amazônica, muitas vezes imaginada como uma massa verde uniforme, é na verdade um mosaico. Há matas de terra firme, várzeas inundáveis, campos naturais, cerrados de transição, igarapés, lagoas sazonais e trechos de floresta mais aberta. Cada ambiente oferecia recursos diferentes e exigia formas específicas de uso.
Os rios eram as principais vias de circulação. Subir ou descer o Madeira, atravessar para o Mamoré, seguir pelo Guaporé ou penetrar pelos afluentes eram movimentos tão naturais para muitas comunidades quanto tomar uma estrada de asfalto é hoje. A canoa era tecnologia de ponta, no melhor sentido da expressão. Feita com conhecimento de madeira, fogo, forma e equilíbrio, permitia transportar pessoas, alimentos, ferramentas, adornos e notícias. Em uma região onde caminhar podia ser lento e difícil, navegar era quase uma arte política.
A ocupação pré-colombiana de Rondônia se deu em ritmos variados. Alguns grupos se fixaram por longos períodos em áreas férteis próximas aos rios. Outros mantiveram maior mobilidade, alternando acampamentos, aldeias e áreas de coleta conforme a estação, a caça, os peixes e as roças. Havia também redes de parentesco que ligavam aldeias distantes. Casamentos, rituais, trocas e conflitos aproximavam povos diferentes. A imagem de comunidades isoladas umas das outras, cada uma parada em seu pedaço de mata, não corresponde à realidade histórica.
Um dos vestígios mais importantes dessa ocupação são as terras pretas arqueológicas. Elas aparecem em manchas escuras no solo, ricas em carvão, cerâmica fragmentada, restos de alimentos, ossos, cinzas e matéria orgânica decomposta. Diferem das terras vizinhas, muitas vezes mais ácidas e pobres em nutrientes. Não surgiram por acaso. Resultam de ocupação prolongada, descarte de resíduos, cultivo, preparo de alimentos e manejo cotidiano. São, em certo sentido, arquivos de vida doméstica.
Essas terras negras contam uma história prática. Quem as formou cozinhava, pescava, plantava, quebrava panelas, enterrava restos, queimava materiais orgânicos e voltava aos mesmos lugares por gerações. Em alguns casos, as manchas indicam aldeias estáveis. Em outros, sugerem áreas de atividade repetida, como acampamentos, roças ou pontos de processamento de alimentos. O solo guarda o que a memória oral nem sempre pôde transmitir depois de epidemias, deslocamentos e rupturas posteriores.
A agricultura era parte essencial da vida. A mandioca ocupava lugar central, mas não sozinha. Milho, batata-doce, amendoim, feijões, abóboras, algodão, pimentas, frutas e palmeiras compunham sistemas diversificados. A roça indígena não era uma lavoura simples de uma só planta. Era um arranjo em camadas, com cultivos de ciclos diferentes, árvores úteis, ervas medicinais e áreas em descanso. Para olhos acostumados à agricultura moderna, podia parecer bagunça. Para quem dependia dela, era organização.
O preparo da mandioca exigia saber. Algumas variedades contêm substâncias tóxicas e precisam ser raladas, prensadas, lavadas, torradas ou fermentadas antes do consumo. Da mandioca vinham farinha, beijus, pubas e outros alimentos. O tipiti, trançado de fibras usado para prensar a massa, é um exemplo de técnica tão simples quanto eficaz. Não havia prensa industrial, mas havia engenhos de conhecimento. A floresta fornecia matéria-prima; as mãos transformavam em comida segura.
Além da roça, havia o manejo da floresta. Palmeiras como babaçu, tucumã, açaí e pupunha eram protegidas e favorecidas. Árvores frutíferas podiam ser plantadas perto das aldeias ou preservadas nas áreas de cultivo. Trilhas eram abertas, clareiras mantidas, espécies úteis espalhadas. O fogo era usado com cuidado, embora nem sempre com o controle desejado. A ideia de uma natureza intocada esconde uma realidade mais interessante: muitos ambientes amazônicos foram moldados por pessoas ao longo de séculos.
A pesca completava a dieta e dava ritmo ao calendário. Nos períodos de cheia, peixes entravam em lagos, igapós e áreas alagadas. Na vazante, ficavam mais concentrados em poços e canais, facilitando a captura. Tambakis, piranhas, jaraquis, matrinxãs, surubins e outros peixes eram conhecidos por nome, comportamento e época de abundância. Armadilhas, arpões, redes, venenos vegetais e barragens simples faziam parte do repertório técnico. O rio não era apenas paisagem; era despensa em movimento.
A caça também era importante. Pacas, cutias, queixadas, catetos, macacos, aves, tracajás e outros animais forneciam carne, penas, ossos e peles. Mas caçar exigia mais do que força. Era preciso ler pegadas, reconhecer sons, saber hábitos noturnos e diurnos, entender ventos e evitar áreas esgotadas. Muitas sociedades indígenas desenvolviam regras de uso, tabus e períodos de descanso para certos animais. A sobrevivência dependia de equilíbrio, ainda que esse equilíbrio não fosse necessariamente pacífico ou sentimental.
A cerâmica é outro marcador forte da ocupação antiga. Fragmentos de panelas, tigelas e vasos aparecem em muitos sítios de Rondônia, sobretudo nas proximidades de rios e áreas de terra preta. Alguns trazem superfícies corrugadas, outros grafismos incisos, bordos modelados ou pinturas. A cerâmica servia para cozinhar, armazenar, fermentar, servir alimentos e, em certos contextos, para práticas funerárias. Uma panela quebrada pode parecer pouco, mas para o arqueólogo é quase uma carta enviada do passado.
Os estilos cerâmicos ajudam a identificar relações entre grupos. Semelhanças de forma, técnica e decoração podem indicar trocas, parentesco, circulação de artesãs e artesãos ou influências culturais. Diferenças também são importantes, pois mostram identidades próprias. A Amazônia pré-colombiana não era uma cultura única. Era um campo de variações, em que povos vizinhos podiam compartilhar técnicas sem deixar de manter línguas, rituais e histórias distintas.
As línguas faladas na região antes da chegada dos europeus eram numerosas. Muitas desapareceram antes de serem registradas. Outras sobreviveram até hoje, embora frequentemente sob pressão. Em Rondônia e áreas próximas, encontram-se famílias linguísticas como Tupi-Ari, com povos Mondé, Tupari, Arikém, Makurap e outros; grupos Jabuti, como Arikapu e Djeoromitxi; povos Wari’, ligados à família Txapakura; Kanoê e Akuntsu, com línguas próprias; além de povos Nambikwara em áreas de transição. Essa diversidade já existia antes dos mapas modernos.
Os nomes usados hoje para identificar povos indígenas nem sempre foram escolhidos por eles mesmos. Muitos surgiram de apelidos dados por vizinhos, viajantes, militares, missionários ou funcionários públicos. “Arara”, por exemplo, é nome aplicado a povos diferentes em regiões distintas. “Suruí” também pode gerar confusão, pois há Suruí de Rondônia e Suruí de outras áreas. Por isso, a história indígena exige cuidado. Um nome pode esconder uma autodenominação, uma tradução aproximada ou uma etiqueta imposta de fora.
Mesmo com essas cautelas, é possível perceber a profundidade das raízes locais. Povos que hoje vivem em terras indígenas de Rondônia não chegaram à região como visitantes recentes. Suas memórias, línguas e práticas revelam longa presença em rios, matas e campos. A história escrita costuma tratar como “contato” o momento em que o Estado ou os cronistas finalmente enxergam esses povos. Mas, para eles, a história já tinha milhares de páginas antes disso.
As aldeias eram organizadas de acordo com costumes específicos. Algumas se dispunham em círculo, com casas voltadas para uma praça central. Outras seguiam linhas ao longo do rio ou se distribuíam em conjuntos menores. A casa coletiva, ou maloca, podia abrigar famílias aparentadas e servir como espaço de trabalho, conversa, ritual e proteção. A arquitetura não era apenas abrigo contra chuva e sol; era uma forma de ordenar relações sociais.
A vida cotidiana combinava tarefas coletivas e especializadas. Havia bons canoeiros, caçadores experientes, parteiras, curadores, oleiras, fabricantes de cestos, cantores, conselheiros e pessoas conhecidas por saber histórias antigas. Nem todo saber era público. Algumas técnicas, cantos e remédios pertenciam a famílias, ritos ou grupos específicos. A autoridade podia estar ligada à idade, à generosidade, à habilidade guerreira, ao conhecimento ritual ou à capacidade de mediar conflitos.
A liderança indígena raramente se parecia com o cargo político moderno. Um chefe não era simplesmente alguém que mandava. Em muitas sociedades, precisava persuadir, distribuir, organizar festas, receber visitantes e demonstrar generosidade. Autoridade sem reconhecimento social tendia a durar pouco. Isso não significa ausência de hierarquia ou conflito. Significa que o poder funcionava de outro modo, mais dependente de relações pessoais do que de instituições burocráticas.
A guerra também fazia parte da história pré-colombiana. Seria ingênuo imaginar a Amazônia como um paraíso sem disputas. Havia rivalidades, vinganças, raptos, ataques e alianças instáveis. Algumas comunidades fortificavam aldeias com paliçadas. Outras deslocavam aldeias inteiras depois de conflitos. Ao mesmo tempo, havia casamentos entre grupos, trocas cerimoniais e visitas pacíficas. Paz e guerra não eram estados permanentes; eram possibilidades que se alternavam conforme circunstâncias.
Os rituais davam forma ao tempo. Festas de colheita, iniciação, cura, caça, pesca e passagem de conhecimento marcavam momentos importantes. Cantos, danças, pinturas corporais, bebidas fermentadas e objetos cerimoniais ajudavam a renovar laços entre vivos, mortos, animais e espíritos. Para muitas sociedades indígenas, o mundo visível não era separado de um mundo invisível. Doenças, caça, clima e sonhos podiam ter causas e soluções que envolviam relações com forças não humanas.
Os mortos também pertenciam à história das aldeias. Cemitérios, urnas, ossadas e locais de memória mostram que a ocupação do espaço incluía os antepassados. Em alguns grupos, restos mortais eram tratados de maneiras específicas, conforme crenças sobre a viagem após a morte. Sítios funerários exigem respeito especial. Não são depósitos de objetos, mas lugares de pessoas. A arqueologia, quando feita com responsabilidade, precisa lidar com essa dimensão humana, e não apenas com datações e classificações.
As tradições orais preservam versões próprias da origem dos povos e de seus deslocamentos. Mitos de transformação, encontros com animais, viagens de ancestrais e episódios de separação entre grupos funcionam como arquivos históricos em linguagem simbólica. Não devem ser lidos como relatos jornalísticos, mas também não devem ser descartados como fantasia. Eles organizam memória, território e identidade. Para comunidades sem escrita alfabética, a palavra cantada ou narrada tem peso documental.
O comércio entre povos existia, embora não nos moldes de uma economia de mercado moderna. Circulavam objetos de pedra, cerâmicas, adornos de pena, cestos, sal, resinas, pigmentos, plantas medicinais e talvez alimentos processados. A troca podia ocorrer em festas, casamentos ou encontros planejados. O valor de um objeto não estava apenas em sua utilidade. Um colar, uma panela ou uma pena rara podiam carregar prestígio, aliança e lembrança.
As redes de circulação conectavam Rondônia a regiões mais amplas. O Guaporé aproximava o território das planícies bolivianas. O Madeira ligava o sudoeste amazônico ao baixo Amazonas. O Mamoré e seus afluentes abriam caminho para o Beni. O Ji-Paraná penetrava no interior da floresta. Por esses corredores passavam pessoas, técnicas, palavras e histórias. A Amazônia pré-colombiana era menos isolada do que a imagem de “selva fechada” costuma sugerir.
A diversidade ambiental favorecia essa variedade cultural. No norte e no centro, predominam florestas úmidas de terra firme e áreas de várzea. No sul e no leste, aparecem formações de transição, com campos e cerrados. Povos Nambikwara, por exemplo, desenvolveram modos de vida adaptados a ambientes que combinam floresta e áreas abertas. Outros grupos, mais ligados aos rios, organizaram sua vida em torno da pesca, das canoas e das várzeas. A cultura acompanhava o terreno.
O conhecimento do clima era fundamental. A distinção entre estação chuvosa e estação seca orientava plantios, pescarias, deslocamentos e construções. Saber quando o rio subiria, quando certos frutos amadureceriam ou quando os animais apareceriam podia significar diferença entre abundância e escassez. Esse saber não vinha de instrumentos meteorológicos, mas da observação acumulada. Avós, pais, tios e crianças aprendiam juntos a ler sinais que hoje muita gente só percebe quando o celular perde sinal.
As tecnologias indígenas eram adequadas aos materiais disponíveis. Arcos, flechas, cestarias, redes, remos, machados de pedra, panelas de barro e casas de palha formavam um conjunto eficiente. A ausência de metal não significava atraso absoluto. Em muitos ambientes de floresta, o machado de pedra bem feito, o fogo controlado e o conhecimento das madeiras resolviam tarefas cotidianas. O progresso técnico não segue uma única escada universal; segue caminhos adaptados aos problemas de cada lugar.
A cestaria e a tecelagem merecem destaque. Cestos serviam para carregar mandioca, peixe, frutos, crianças pequenas, lenha e ferramentas. Redes permitiam dormir acima do chão, evitando umidade, insetos e animais. Fios de algodão, tucum e outras fibras eram transformados em objetos leves e resistentes. Muitas dessas técnicas dependiam de saber feminino, embora homens também participassem de etapas específicas. A divisão do trabalho variava conforme o povo e a tarefa.
As mulheres tiveram papel central na agricultura, no processamento de alimentos, na cerâmica, na reprodução social e na transmissão de saberes. Em várias sociedades indígenas, a roça está fortemente associada ao trabalho feminino, embora homens também abram clareiras, derrubem matas e ajudem no plantio. A produção de farinha, o preparo de bebidas e a manutenção da casa coletiva exigiam coordenação. Ignorar esse papel deixa a história incompleta e injusta.
As crianças aprendiam fazendo. Observavam adultos pescar, tecer, plantar, cozinhar, remar e narrar histórias. Brincadeiras imitavam caçadas, rituais e tarefas domésticas. Canções e mitos ensinavam normas de convivência, origens do grupo e cuidados com animais e plantas. A educação não ficava restrita a um prédio chamado escola. A aldeia inteira funcionava como espaço de aprendizagem, ainda que houvesse momentos formais de iniciação e transmissão de conhecimentos específicos.
A alimentação revelava a relação entre técnica e ambiente. Uma refeição podia incluir peixe assado, farinha de mandioca, frutos coletados, carne de caça, pimenta e bebida fermentada. O paladar indígena não era uniforme; variava conforme região, estação e ocasião. Festas tinham comidas especiais. Doenças exigiam dietas específicas. Certos alimentos podiam ser evitados por tabus. Comer era sempre mais do que matar a fome; era participar de uma ordem cultural.
Os sítios arqueológicos de Rondônia enfrentam riscos constantes. Estradas, loteamentos, obras hidroviárias, expansão agrícola e saques removem camadas de história antes que sejam estudadas. Em áreas urbanas, fragmentos de cerâmica aparecem durante terraplenagens e às vezes são tratados como entulho. Em áreas rurais, máquinas agrícolas podem destruir sepultamentos e manchas de terra preta. A proteção do patrimônio arqueológico ainda depende de fiscalização, pesquisa e reconhecimento público.
A ocupação pré-colombiana também desafia estimativas simplistas sobre população. Alguns autores já imaginaram a Amazônia como região de baixa densidade, quase vazia. Outros projetaram grandes civilizações urbanas comparáveis às dos Andes. A realidade provavelmente fica entre esses extremos. Havia áreas densamente ocupadas, sobretudo perto de rios férteis, e vastos territórios usados de forma mais dispersa. A densidade variava conforme ecologia, tecnologia, conflitos e história local.
Rondônia não fazia parte de um império pré-colombiano conhecido, como o Inca, nem estava submetida a um Estado centralizado. Isso não significa atraso. Significa que a organização social seguia outros princípios. Muitos povos valorizavam autonomia de aldeias, redes de parentesco e liderança negociada. Em vez de construir grandes cidades de pedra, mantinham sistemas flexíveis de ocupação, capazes de se adaptar a mudanças ambientais e políticas. A história não precisa imitar os Andes para ser complexa.
Os vestígios deixados pelos povos antigos mostram que a floresta era produtiva sem depender do modelo agrícola europeu. Roças de coivara, pousio, pomares manejados, pesca sazonal e coleta planejada formavam economias resilientes. Quando uma área se cansava, podia ser deixada em descanso. Quando outra oferecia recursos, era incorporada ao circuito. Essa mobilidade não era falta de posse; muitas vezes era justamente a forma de garantir uso sustentável e defesa do território.
A noção de território indígena era mais ampla do que a aldeia. Incluía roças, trilhas, cemitérios, lagos, morros, lugares de caça, pontos de coleta e áreas de encontro. Um rio podia ser fronteira, mas também caminho comum. Uma clareira antiga podia guardar memória de aldeia extinta. Uma árvore frutífera plantada por antepassados continuava alimentando descendentes décadas depois. Território era, ao mesmo tempo, espaço material e rede de relações.
A chegada posterior de europeus não encontrou uma região sem história. Encontrou povos com nomes, mapas mentais, conflitos, alianças e lembranças. O que chamamos de pré-colombiano em Rondônia não terminou de maneira uniforme. Em algumas áreas, o contato direto com portugueses, espanhóis, missionários, comerciantes ou agentes estatais ocorreu tardiamente. Em outras, doenças, notícias e pressões chegaram antes dos próprios estranhos. A fronteira entre pré e pós-contato é mais borrada do que os calendários sugerem.
A história indígena de Rondônia começa, portanto, antes da escrita colonial, mas não antes da memória. Ela está nos rios que ainda carregam nomes antigos, nos solos escuros que fertilizam quintais, nos fragmentos de cerâmica encontrados à beira de igarapés, nas línguas que resistem e nas narrativas que explicam por que certos povos estão onde estão. Antes de qualquer estrada cortar a floresta, já havia caminhos. Antes de qualquer mapa oficial, já havia dono do caminho, dono da roça, dono do canto e dono da história.
CHAPTER TWO
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