- Introdução
- Capítulo 1 Antes da Revelação: Arabia no Século VI
- Capítulo 2 O Profeta e o Nascimento do Islã
- Capítulo 3 Os Califas Bem-Guiados e as Conquistas Iniciais
- Capítulo 4 A Dinastia Omíada: Um Império Árabe
- Capítulo 5 A Era de Ouro Abássida: Bagdá e a Casa da Sabedoria
- Capítulo 6 A Fragmentação do Califado: Dinastias Regionais
- Capítulo 7 Al-Andalus: Os Árabes na Espanha
- Capítulo 8 Os Fatímidas e a Ascensão do Cairo
- Capítulo 9 As Cruzadas de uma Perspectiva Árabe
- Capítulo 10 Saladino e a Dinastia Aiúbida
- Capítulo 11 Os Mamelucos do Egito e da Síria
- Capítulo 12 As Invasões Mongóis e o Fim do Califado Abássida
- Capítulo 13 A Ascensão do Império Otomano e as Províncias Árabes
- Capítulo 14 Vida no Mundo Árabe Otomano: Sociedade e Cultura
- Capítulo 15 A Invasão Napoleônica do Egito e a Alvorada da Modernidade
- Capítulo 16 Muhammad Ali e a Formação do Egito Moderno
- Capítulo 17 O Despertar Árabe: A Nahda
- Capítulo 18 A Primeira Guerra Mundial e a Grande Revolta Árabe
- Capítulo 19 O Sistema de Mandatos: A Era Colonial
- Capítulo 20 A Ascensão do Nacionalismo Árabe
- Capítulo 21 A Criação de Israel e a Nakba
- Capítulo 22 A Era das Revoluções e Repúblicas
- Capítulo 23 O Boom do Petróleo e seu Impacto no Golfo
- Capítulo 24 O Mundo Árabe no Final do Século XX: Conflitos e Mudanças
- Capítulo 25 O Século XXI: A Primavera Árabe e Além
- Posfácio
- Glossário
Uma história dos árabes
Sumário
Introdução
Escrever uma história dos árabes é embarcar numa jornada que abrange milênios e continentes, traçando o caminho de um povo definido, acima de tudo, por uma língua. É uma história que começa nos desertos agrestes de uma península e se expande para tocar todos os cantos do globo. É uma narrativa repleta de profetas e califas, poetas e cientistas, conquistadores e nômades. É a história de grandes impérios que se estendiam do Atlântico ao Indo, e da rica, complexa e muitas vezes turbulenta história das vinte e duas nações que hoje constituem o mundo árabe. Este livro visa navegar por essa vasta paisagem histórica, oferecendo um relato direto dos povos e regiões de língua árabe, do passado antigo ao presente instável.
Mas, primeiro, uma pergunta enganosamente simples deve ser abordada: quem, precisamente, é um árabe? A resposta não é uma questão de raça ou etnia. Um árabe não é definido por uma cor de pele particular ou um conjunto de características físicas; os árabes são tão diversos na aparência quanto a própria humanidade, variando de peles claras com olhos azuis a peles escuras. Nem a definição está estritamente ligada à religião. Embora a maioria dos árabes sejam muçulmanos, existem milhões de árabes cristãos e comunidades menores de árabes judeus e de outras fés. Historicamente, havia tribos árabes cristãs e judaicas proeminentes muito antes do advento do Islã. A definição mais abrangente e amplamente aceita é cultural e linguística: um árabe é alguém cuja língua nativa é o árabe ou que se identifica com a cultura e a história compartilhadas pelos povos de língua árabe. É este fio linguístico e cultural que une os mais de 300 milhões de árabes que vivem no Oriente Médio, no Norte da África e numa diáspora global.
O termo "árabe" em si evoluiu. Para os antigos assírios, denotava os povos nômades dos desertos da Síria e da Arábia. Durante séculos, referiu-se amplamente aos habitantes da Península Arábica. A transformação crucial ocorreu no século VII EC. O nascimento do Islã no coração da Arábia e as conquistas subsequentes levaram a língua árabe e uma nascente cultura árabe-islâmica muito além da sua terra natal original. Povos do Levante à Mesopotâmia, do Egito através do Norte de África até à Península Ibérica, adotaram gradualmente o árabe. Este processo, conhecido como arabização, foi mais uma assimilação linguística e cultural do que uma substituição populacional em massa. As populações locais aprenderam a língua da nova administração e religião, e, ao longo de gerações, começaram a identificar-se como árabes. Este livro, portanto, conta a história não apenas dos habitantes originais da Península Arábica, mas de todos os povos que passaram a partilhar e a moldar esta identidade linguística e cultural comum.
O palco geográfico para esta história é imenso e variado. O mundo árabe estende-se por mais de 13 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo dois continentes, a Ásia e a África. Estende-se das margens do Oceano Atlântico a oeste até ao Mar Arábico a leste, do Mar Mediterrâneo a norte até ao Chifre da África e ao Oceano Índico a sudeste. Esta vasta extensão é frequentemente dividida em duas grandes regiões: o Mashriq (o Leste), que inclui a Península Arábica, o Levante (a atual Síria, Líbano, Jordânia e Palestina) e o Iraque; e o Magrebe (o Oeste), compreendendo as nações norte-africanas de Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Mauritânia. A própria paisagem é uma personagem desta história, dominada por alguns dos maiores desertos do mundo, como o Saara e o Rub' al Khali (o "Quarto Vazio"), mas também apresentando os vales férteis dos rios Nilo, Tigre e Eufrates, e as cadeias montanhosas do Atlas e do Levante. Esta geografia diversificada moldou culturas locais distintas, desde as tradições nômades do deserto até às cidades portuárias cosmopolitas do Mediterrâneo.
A força unificadora em toda esta vasta extensão é a língua árabe. Membro da família linguística semítica, que também inclui o hebraico e o aramaico, o árabe surgiu na Península Arábica por volta do século I EC. A sua história inicial está preservada na poesia pré-islâmica, que celebrava os códigos de honra, a hospitalidade e as duras realidades da vida no deserto. A revelação do Alcorão no século VII foi um evento transformador para a língua. Padronizou e santificou uma forma de árabe que se tornou a base para uma rica tradição literária e intelectual. À medida que o império islâmico se expandia, o árabe tornou-se a língua da administração, da erudição e do comércio. Durante séculos, na Idade Média europeia, foi a principal língua da ciência, da filosofia e da medicina em todo o mundo. Obras de estudiosos gregos, persas e indianos foram traduzidas para o árabe, preservadas e desenvolvidas em centros de aprendizado como a Casa da Sabedoria de Bagdade, para serem posteriormente transmitidas à Europa. Ainda hoje, palavras de origem árabe estão incorporadas no português e noutras línguas europeias, particularmente nos domínios da ciência e da matemática, com termos como "álgebra", "algoritmo" e "álcool" servindo como fósseis linguísticos deste legado.
A nossa jornada histórica começa, como deve ser, antes deste momento crucial. O Capítulo 1, "Antes da Revelação", explorará o mundo da Arábia do século VI. Era uma terra de pastores nômades e agricultores sedentários, uma encruzilhada de rotas comerciais que ligavam os grandes impérios de Bizâncio e da Pérsia com a África e o Oriente. Era um mundo de lealdades tribais, vendetas de sangue e um rico mosaico religioso politeísta, ao lado de comunidades estabelecidas de cristãos e judeus. Este era o ambiente complexo e dinâmico do qual emergiriam uma nova fé e uma nova ordem mundial. Os capítulos subsequentes seguirão o arco cronológico da história árabe, uma história marcada por ciclos dramáticos de unidade e fragmentação, de eras de ouro e períodos de declínio. Testemunharemos o nascimento do Islã e as conquistas surpreendentemente rápidas sob os primeiros califas, sucessores do Profeta Maomé, que forjaram um vasto império.
Entraremos então na era dos grandes califados. A dinastia Omíada, baseada em Damasco, estabeleceu o primeiro império árabe hereditário, estendendo o seu domínio da Espanha à Ásia Central. Foram sucedidos pelos Abássidas, que mudaram a capital para a recém-fundada cidade de Bagdade. A era abássida é frequentemente lembrada como a Era de Ouro Islâmica, um período de notável florescimento científico, cultural e intelectual. Grandes mentes em Bagdade, Cairo e Córdova fizeram avanços fundamentais em matemática, astronomia, medicina e filosofia. Mas esta unidade não duraria. O imenso califado começou a fragmentar-se, com dinastias regionais subindo ao poder em lugares como a Espanha (Al-Andalus), o Egito sob os Fatímidas, e por todo o Norte de África e Pérsia. Este período de fragmentação política foi, no entanto, muitas vezes de brilho cultural contínuo nestas cortes regionais.
A narrativa voltará então para os grandes choques que desafiaram o mundo árabe tanto a oeste como a leste. Veremos as Cruzadas, não da perspetiva europeia familiar, mas do ponto de vista dos governantes e povos árabes que confrontaram os invasores. Conheceremos figuras como Saladino, o sultão curdo do Egito e da Síria que reconquistou Jerusalém. Isto será seguido pelas invasões mongóis cataclísmicas do século XIII, que culminaram no devastador saque de Bagdade em 1258, um evento que encerrou simbolica e praticamente o Califado Abássida e a Era de Ouro Islâmica clássica. Das cinzas deste período, surgiriam novos poderes.
Uma parte significativa da nossa história será dedicada à longa era do domínio turco otomano. Durante quatro séculos, do século XVI ao início do XX, a maior parte do mundo árabe foi incorporada no Império Otomano. Examinaremos a natureza deste domínio, explorando a vida social, cultural e económica das províncias árabes sob os sultões em Istambul. Este longo período de estabilidade relativa foi abalado pela chegada do exército de Napoleão ao Egito em 1798, um evento dramático que é frequentemente visto como o alvorecer da era moderna no Oriente Médio. Este encontro com o poder militar e tecnológico europeu foi um choque profundo que pôs em movimento um período de intenso questionamento, reforma e turbulência que continua até hoje.
O terço final do livro navegará pela história complexa e muitas vezes dolorosa do mundo árabe moderno. Traçaremos a ascensão de modernizadores ambiciosos como Muhammad Ali no Egito, o renascimento cultural e intelectual do século XIX conhecido como Nahda ou Despertar Árabe, e a Grande Revolta Árabe contra os otomanos durante a Primeira Guerra Mundial. Analisaremos a subsequente traição sentida por muitos árabes com a imposição do sistema colonial de Mandatos pela Grã-Bretanha e França, que dividiram a região em novos estados sem considerar os desejos locais. Esta experiência colonial alimentou a ascensão do nacionalismo árabe, uma poderosa ideologia que buscava unidade, independência e modernidade.
A narrativa confrontará os conflitos centrais do século XX, incluindo a criação do Estado de Israel e o seu impacto catastrófico sobre os palestinos, conhecido como a Nakba. Traçaremos a era das revoluções que derrubaram monarquias e estabeleceram repúblicas, a ascensão e queda do pan-arabismo sob figuras como Gamal Abdel Nasser do Egito, e as profundas mudanças sociais provocadas pela descoberta do petróleo na Península Arábica. Finalmente, examinaremos o final do século XX e o início do XXI, um período marcado por guerras devastadoras, a ascensão do Islã político, e os eventos dramáticos, esperançosos e, em última análise, trágicos da Primavera Árabe.
Ao longo desta longa e sinuosa história, este livro aderirá a um princípio de narrativa clara e factual. Esforçar-se-á por apresentar os eventos de múltiplas perspetivas, evitando sermões ou tomar partido nos complexos debates políticos e religiosos que moldaram a história árabe. O objetivo não é emitir um juízo final, mas fornecer ao leitor uma base sólida para compreender as forças que moldaram o mundo árabe, desde a poesia do deserto pré-islâmico até às publicações nas redes sociais do revolucionário do século XXI. Esta é uma história de conquistas extraordinárias e tragédias profundas, de uma cultura que influenciou profundamente o mundo inteiro, e de um povo cuja história está longe de terminar. A nossa jornada começa na véspera da grande transformação, nas areias da Arábia do século VI.
CAPÍTULO UM: Antes da Revelação: A Arábia no Século VI
Para os grandes impérios do século VI, os persas sassânidas e os romanos bizantinos, a vasta extensão da Península Arábica era um lugar de importância estratégica e profunda ambiguidade. Durante séculos, essas duas potências colossais estiveram presas num ciclo aparentemente interminável de guerra, uma partida de xadrez geopolítica que se estendia das montanhas do Cáucaso aos desertos da Mesopotâmia. Para eles, a Arábia era um flanco arenoso imenso — uma fonte de mercenários robustos, uma zona de trânsito para o comércio lucrativo e uma região-tampão a ser gerida através de alianças com reinos clientes. Viam-na como uma terra de nômades e assentamentos dispersos, muito distante dos grandes centros imperiais de Constantinopla e Ctesifonte. No entanto, nas cidades empoeiradas e nos desertos agrestes desta península, forças estavam-se a reunir e ideias a fermentar que, no século seguinte, transformariam por completo não apenas os dois grandes impérios, mas o mundo inteiro.
A geografia da península era, e é, uma personagem dominante na sua história. Grande parte do interior é definida por desertos imensos e inóspitos, como o Rub' al Khali, ou "Quarto Vazio", um mar de areia maior do que a França. Estas terras áridas eram o domínio dos beduínos, os pastores nômades cujas vidas eram uma negociação constante e habilidosa com um ambiente severo. A sua existência era possibilitada pelo camelo, o "navio do deserto", um animal perfeitamente adaptado ao clima, que fornecia transporte, leite, carne e pelo para as tendas. A sociedade organizava-se em torno da tribo e do clã, a fonte última da identidade e proteção do indivíduo. A lealdade aos seus parentes, um conceito conhecido como 'asabiyyah (solidariedade de grupo), era a virtude suprema, o cimento que mantinha a sociedade unida numa terra sem governo central nem sistema legal formal.
Esta vida nômade era pontuada pelo ghazw, ou raide, uma instituição frequentemente mal compreendida como mero banditismo. Embora certamente violento, o raide era uma característica central da economia do deserto, um meio de redistribuir recursos escassos como camelos, cavalos e bens. Era regido pelas suas próprias regras e ética não escritas; o objetivo era apoderar-se de propriedades com o mínimo derramamento de sangue, pois matar um adversário desencadearia o ciclo inescapável da vendeta de sangue, uma rixa que poderia envenenar as relações entre tribos por gerações. O homem beduíno ideal era definido pelo código de muruwwa, um termo que abrange uma constelação de virtudes: coragem na batalha, paciência na adversidade, lealdade à tribo e, acima de tudo, uma generosidade e hospitalidade pródigas, mesmo para com um estranho. No deserto implacável, partilhar o alimento e oferecer proteção era uma questão de sobrevivência comunitária.
Nem todos os árabes eram nômades. Os povos sedentários, ou ahl al-hadar, viviam nos oásis dispersos do interior e nas vilas e cidades que pontuavam as franjas ocidental e meridional da península. No sul, no atual Iémen, situava-se o que os romanos chamavam de Arabia Felix, ou "Arábia Feliz". Durante séculos, esta região fora o lar de reinos sofisticados que enriqueceram com a agricultura, apoiada por complexos sistemas de irrigação como a famosa Grande Barragem de Maribe, e com o controlo do comércio lucrativo de incenso e mirra. No século VI, no entanto, esta região encontrava-se num estado de turbulência. A grande barragem terá colapsado, um evento catastrófico que entrou na memória histórica árabe. O último grande reino nativo, o Reino Himiarita, fora enfraquecido por conflitos internos e invasão estrangeira. Tornou-se um campo de batalha para as grandes potências, ocupado primeiro pelos etíopes cristãos de Axum com o incentivo bizantino, e mais tarde pelos persas sassânidas.
A paisagem política da Arábia do século VI era um remendo de influências concorrentes. Com o sul em desordem, os principais centros de poder e influência localizavam-se nas fronteiras setentrionais, onde bizantinos e persas mantinham os seus respectivos reinos clientes árabes. No deserto sírio, os Ghassânidas, uma dinastia árabe cristã, serviam como vassalos do Império Bizantino, guardando as fronteiras contra incursões sassânidas e raides de outras tribos beduínas. Do outro lado da divisão imperial, no sul do Iraque, com capital em al-Hira, estavam os Lakhmidas. Também em grande parte cristãos, eram clientes leais do Império Sassânida e rivais perenes dos Ghassânidas. As escaramuças intermináveis e as guerras por procuração entre estes dois reinos árabes eram um microcosmo da luta maior, secular, entre Roma e Pérsia.
Entre estas grandes esferas de influência situava-se o Hejaz, a espinha dorsal montanhosa ocidental da península. Esta região, menos diretamente controlada pelos impérios, estava a ganhar importância. À medida que as grandes potências lutavam, perturbando as rotas comerciais tradicionais através da Mesopotâmia, uma rota terrestre de caravanas mais segura, que percorria a extensão da costa do Mar Vermelho, cresceu em significado. E no coração desta rede estava a cidade de Meca. Carecendo dos recursos agrícolas de um oásis como Iatribe (posteriormente Medina), a existência de Meca baseava-se quase inteiramente em duas coisas: comércio e religião. A cidade era controlada pela poderosa tribo dos Quraysh, que se tornaram mestres na organização do comércio de caravanas, firmando acordos com tribos beduínas para garantir a passagem segura dos seus comboios carregados de especiarias e têxteis do Iémen e bens da Síria.
O sucesso comercial de Meca era inseparável do seu significado espiritual. A cidade albergava a Caaba, um edifício simples, cúbico, de pedra, que era o santuário mais reverenciado de toda a Arábia. Embora a tradição islâmica posterior sustente que foi construída por Abraão e o seu filho Ismael, no século VI era um santuário politeísta, um panteão que abrigava até 360 ídolos representando as várias divindades tribais de toda a península. A divindade principal da Caaba era Hubal, um deus associado à adivinhação. Também eram veneradas três poderosas deusas conhecidas como al-Lat, al-Uzza e Manat. A presença destes ídolos fazia de Meca um importante destino de peregrinação. Uma trégua sagrada era declarada nos meses que antecediam a peregrinação principal, proibindo a guerra tribal e os raides endémicos noutros locais. Esta trégua transformava Meca num refúgio seguro e num vasto mercado anual, permitindo que o comércio e a diplomacia florescessem sob proteção divina. A administração deste local sagrado conferia um imenso prestígio e poder económico à tribo dos Quraysh.
A religião dominante da península era um politeísmo rico e diversificado. Os árabes adoravam uma vasta gama de deuses e deusas, muitos dos quais se acreditava serem intermediários de um deus supremo, mas distante, Alá. As crenças eram também animadas por um mundo de espíritos, ou jinn — seres invisíveis de fogo que podiam ser benevolentes ou malévolos — e por uma veneração por pedras, árvores e nascentes sagradas. Esta paisagem religiosa, no entanto, estava longe de ser monolítica. O monoteísmo tinha feito incursões significativas na Arábia ao longo de vários séculos. Existiam numerosas e bem estabelecidas tribos judaicas, particularmente nos oásis de Iatribe, Caibar e em partes do Iémen. Estas comunidades estavam profundamente integradas na vida árabe, trabalhando como agricultores, artesãos e comerciantes.
O Cristianismo também era difundido, especialmente no norte entre os Ghassânidas, no leste nas terras fronteiriças com a Pérsia, e no sul, particularmente na cidade de Najrã, que era um grande centro cristão. As formas de cristianismo praticadas na Arábia eram frequentemente aquelas consideradas heréticas pela igreja ortodoxa bizantina, como o Monofisismo, aderido pelos Ghassânidas. A península era um lugar de fermentação religiosa, uma encruzilhada não apenas de comércio, mas também de fé. Eremitas e ascetas errantes eram uma parte familiar da paisagem, e há evidências de um impulso monoteísta nativo entre os árabes conhecidos como hanifs, que, segundo a tradição posterior, rejeitavam a idolatria e buscavam o único Deus verdadeiro de Abraão fora das estruturas estabelecidas do Judaísmo ou do Cristianismo.
A maior realização cultural dos árabes pré-islâmicos, a forma de arte que encapsulava os seus valores, história e visão de mundo, era a poesia. Numa sociedade predominantemente oral, o poeta (sha'ir) era uma figura de imensa importância — historiador, propagandista e bússola moral da tribo, tudo num só. Acreditava-se que um poeta dotado era inspirado por um jinn pessoal, e pensava-se que as suas palavras possuíam um poder mágico. O surgimento de um grande poeta era motivo de celebração, pois as suas odes preservariam os feitos gloriosos e a genealogia da tribo para a posteridade, enquanto as suas sátiras podiam ser uma arma devastadora contra rivais. As feiras anuais, como a de 'Ukaz perto de Meca, serviam não apenas para o comércio, mas também para competições de poesia, onde os melhores poetas recitavam as suas odes intrincadas, ou qasidas. A tradição sustenta que as mais finas destas poesias, as Mu'allaqat ou "Odas Suspensas", foram inscritas em ouro e penduradas nas paredes da Caaba, um testemunho do seu lugar supremo na cultura.
Assim, a Arábia do final do século VI estava longe de ser um recanto estagnado ou isolado. Era um mundo em transição, preso entre impérios poderosos, ligado por extensas redes comerciais e animado por uma complexa tapeçaria de estruturas sociais e ideias religiosas. Os velhos reinos do sul eram uma memória a desvanecer-se, o seu declínio acelerado pela seca e pela invasão estrangeira. As guerras constantes dos bizantinos e persas trouxeram tanto oportunidades económicas como instabilidade política. Dentro de um centro comercial próspero como Meca, a nova riqueza estava a criar estratificação e tensões sociais, desafiando as velhas éticas tribais de solidariedade e apoio mútuo. Era um mundo cheio de anseio espiritual e inquietação política, uma sociedade madura para uma mensagem que pudesse cortar a teia de lealdades tribais e ídolos concorrentes para oferecer uma nova visão unificadora do mundo e do lugar da humanidade nele.
This is a sample preview. The complete book contains 29 sections.