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Uma história do papado

Sumário

  • Introdução
  • Capítulo 1 A Sé Petrina: As Origens da Autoridade Papal
  • Capítulo 2 O Papado e o Império Romano: Da Perseguição à Primazia
  • Capítulo 3 A Era de Gregório Magno: Moldando o Papado Medieval
  • Capítulo 4 Forjando Alianças: O Papado e a Ascensão dos Francos
  • Capítulo 5 O Século de Ferro: O Papado em uma Era de Anarquia
  • Capítulo 6 A Reforma Gregoriana: A Luta do Papado pela Independência
  • Capítulo 7 As Cruzadas: O Papa como Articulador de Poder Europeu
  • Capítulo 8 O Apogeu do Poder Papal: Inocêncio III e o Ápice do Papado Medieval
  • Capítulo 9 O "Cativeiro da Babilônia": O Papado de Avignon
  • Capítulo 10 O Grande Cisma do Ocidente: Uma Igreja Dividida
  • Capítulo 11 Os Papas do Renascimento: Mecenas das Artes e Atores Políticos
  • Capítulo 12 Os Bórgias e os Médici: Poder e Corrupção na Corte Papal
  • Capítulo 13 A Reforma: O Papado Sob Ataque
  • Capítulo 14 O Concílio de Trento e a Contrarreforma: A Resposta Católica
  • Capítulo 15 O Papado Barroco: O Esplendor da Roma Papal
  • Capítulo 16 O Iluminismo e o Papado: Um Choque de Ideias
  • Capítulo 17 O Papado e a Era das Revoluções: A Igreja em Tempos de Turbulência
  • Capítulo 18 A Perda dos Estados Papais: O Papa como "Prisioneiro no Vaticano"
  • Capítulo 19 O Primeiro Concílio do Vaticano: O Dogma da Infalibilidade Papal
  • Capítulo 20 O Papado e as Guerras Mundiais: Autoridade Moral em Tempos de Crise
  • Capítulo 21 O Segundo Concílio do Vaticano: A Igreja Abre suas Janelas para o Mundo Moderno
  • Capítulo 22 O Papa Viajante: João Paulo II e o Papado Global
  • Capítulo 23 O Papa Emérito: A Renúncia de Bento XVI
  • Capítulo 24 Um Papa do "Novo Mundo": O Pontificado de Francisco
  • Capítulo 25 O Papado no Século XXI: Desafios e o Futuro

Introdução

Não há instituição no mundo inteiramente igual ao Papado. Para começar, ele é antigo. O historiador Thomas Babington Macaulay, escrevendo em 1840, observou com uma mistura de ceticismo protestante e espanto histórico que "as mais orgulhosas casas reais são de ontem, quando comparadas com a linhagem dos Sumos Pontífices". Ele rastreou essa linhagem ininterrupta do papa que coroou Napoleão em sua própria vida até aquele que coroou Pepino no século VIII, e "muito além da época de Pepino a augusta dinastia se estende, até se perder no crepúsculo da fábula". Essa linhagem, que os católicos acreditam ter início com o Apóstolo Pedro no primeiro século, persistiu através do colapso do Império Romano, a turbulência da Idade Média, o renascimento do Renascimento, o cisma da Reforma, a convulsão filosófica do Iluminismo, a devastação de duas Guerras Mundiais e os avanços tecnológicos vertiginosos da era moderna. Enquanto impérios, reinos e civilizações inteiras subiram à glória e se desmancharam em poeira, o Papado permanece.

É essa teimosa e pura persistência que torna o Papado um assunto de fascínio interminável, não apenas para os mais de um bilhão de católicos que olham para o papa como seu líder espiritual, mas para pessoas de todas as fés e de nenhuma. É, sem dúvida, a instituição em funcionamento contínuo mais antiga do mundo ocidental, um elo vivo entre a era dos Césares e a era da internet. Sua história é, em muitos aspectos, a história da própria civilização ocidental, uma grande e vasta épica repleta de santos e pecadores, eruditos e guerreiros, artistas e políticos, todos os quais ocuparam o trono de São Pedro. Este livro é uma tentativa de contar essa história épica, de navegar pela jornada de dois mil anos desta instituição notável.

O homem no centro desta história é o próprio papa, uma figura que ocupa uma posição verdadeiramente única no mundo. Ele é o Bispo de Roma, o chefe espiritual da Igreja Católica, o soberano absoluto do menor Estado independente do mundo, a Cidade do Vaticano, e uma figura global cuja autoridade moral se estende muito além dos muros de seu minúsculo reino. Os títulos que ele detém são um testemunho das camadas de história e teologia que envolvem seu ofício: Sumo Pontífice, Vigário de Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos. O termo "papa" deriva da palavra grega pappas, que significa "pai", um título outrora aplicado a todos os bispos, mas que, desde o século XI, foi reservado apenas ao Bispo de Roma. A palavra "pontífice", por sua vez, vem do latim pontifex, que significa "construtor de pontes", um título outrora detido pelos sumos sacerdotes da Roma antiga, sugerindo um papel de mediador entre o humano e o divino.

Este livro, no entanto, não é uma obra de teologia. É uma obra de história. Embora toquemos necessariamente nas doutrinas religiosas que fundamentam a autoridade papal — notadamente, a crença na sucessão apostólica a partir de São Pedro — nosso foco principal será a história humana do Papado. Examinaremos como este ofício, que começou com um pescador na Judeia ocupada pelos romanos, evoluiu ao longo dos séculos até se tornar uma potência de influência espiritual e, por um tempo, temporal e política. Exploraremos a complexa, muitas vezes tensa, relação entre os papas e as grandes potências da época, desde imperadores romanos e autocratas bizantinos até reis francos e imperadores do Sacro Império Romano.

A narrativa do Papado é a de contradições dramáticas e muitas vezes surpreendentes. É uma história de fé profunda e cálculo político rasteiro, de imenso patrocínio artístico e brutais campanhas militares. Os homens que usaram a tiara papal foram um grupo variado, um reflexo do melhor e do pior da humanidade. A lista de mais de 260 papas inclui alguns dos santos mais reverenciados da história, administradores brilhantes e pensadores profundos. Homens como Leão Magno, que enfrentou Átila, o Huno; Gregório Magno, que lançou os alicerces do Papado medieval entre as ruínas do mundo romano; e João Paulo II, que viajou pelo globo e desempenhou papel crucial no colapso do comunismo.

Contudo, o mesmo ofício foi ocupado por indivíduos cujos reinados foram marcados por escândalo, corrupção e violência. Houve papas que geraram filhos, travaram guerras por ganho pessoal e se engajaram nas formas mais cínicas de política de poder. O "Século de Ferro" do Papado no século X, por exemplo, foi um período de tamanha degradação que se tornou joguete de facções aristocráticas romanas rivais, com papas sendo instalados e depostos, aprisionados e até assassinados com regularidade alarmante. Um papa, Estêvão VI, mandou exumar o cadáver de seu predecessor, Formoso, vesti-lo com paramentos papais e submetê-lo a julgamento. Os infames papas do Renascimento, como Alexandre VI da família Bórgia, presidiram uma corte que era mais principesca do que sacerdotal, um centro de intriga e esplendor artístico em igual medida.

Escrever uma história do Papado é, portanto, abraçar essas contradições. É contar a história de uma instituição que, em vários momentos, foi um farol de orientação espiritual, uma preservadora do saber antigo, uma patrona da arte sublime, um grande ator político nos assuntos europeus e um obstáculo ao progresso científico e social. Lançou Cruzadas, autorizou Inquisições e convocou concílios que remodelaram o curso do Cristianismo. Empunhou as armas espirituais da excomunhão e do interdito para trazer reis e imperadores a seus joelhos, e viu-se transformada em peão indefeso em seus jogos de política de poder.

Este livro traçará o longo e sinuoso caminho da história papal, desde seus humildes e obscuros começos na cidade de Roma, o próprio coração do império que executaria seu primeiro líder. Começaremos com a frágil comunidade cristã dos primeiros séculos, uma minoria perseguida cujos bispos em Roma eram mais propensos a terminar como mártires do que como articuladores de poder. Veremos como a conversão do imperador Constantino no século IV alterou dramaticamente a sorte da Igreja, elevando o Bispo de Roma a uma posição de proeminência e lançando as bases para futuras reivindicações de autoridade.

Nossa jornada nos levará pela chamada Idade das Trevas, onde papas como Gregório Magno preencheram o vácuo de poder deixado pelo caído Império Romano do Ocidente, assumindo responsabilidades civis e forjando uma nova identidade para o Papado como força de ordem em um mundo caótico. Examinaremos a aliança crucial firmada com os francos, culminando na momentosa coroação de Carlos Magno como imperador pelo Papa Leão III no Natal de 800, um ato que vincularia o destino do Papado ao da Europa Ocidental por séculos a vir.

Em seguida, mergulharemos na Alta Idade Média, a era do maior poder temporal do Papado. Exploraremos o movimento da Reforma Gregoriana, uma luta feroz para libertar a Igreja do controle de governantes seculares, e as Cruzadas, que viram os papas atuando como líderes de uma Cristandade unida. Este período atingiu seu ápice com o pontificado de Inocêncio III, um papa que poderia plausivelmente reivindicar ser o suserano de todos os monarcas europeus.

Mas o poder é fugaz. Acompanharemos o declínio do Papado no "Cativeiro da Babilônia" do Papado de Avinhão, onde por quase setenta anos os papas residiram na França, amplamente vistos como marionetes da coroa francesa. Seguiu-se a catástrofe ainda maior do Grande Cisma do Ocidente, um período em que dois, e eventualmente três, papas rivais reivindicavam legitimidade, dividindo as lealdades de uma Europa perplexa e prejudicando severamente o prestígio papal.

O Cisma acabou curado, mas o Papado que emergiu era uma criatura diferente. Os Papas do Renascimento muitas vezes se preocupavam mais em consolidar seus territórios italianos — os Estados Papais — e em embelezar Roma do que com a liderança espiritual. Foram dos maiores patronos das artes que o mundo já conheceu, encomendando obras-primas de gênios como Michelangelo e Rafael, mas seu mundanismo e a corrupção que grassava na corte papal ajudaram a alimentar as chamas da Reforma Protestante.

A Reforma foi a maior crise da história do Papado, estilhaçando a unidade religiosa da Europa Ocidental e desafiando os próprios alicerces da autoridade papal. Exploraremos a resposta da Igreja Católica na Contrarreforma e no Concílio de Trento, um período de renovação espiritual e clarificação doutrinária que moldaria o Papado pelos quatrocentos anos seguintes.

Daí em diante, nossa narrativa avançará para a era moderna, uma época de desafícios novos e profundos. Veremos como o Papado lidou com o ascenso do nacionalismo, a crítica da religião pelo Iluminismo e o cataclismo da Revolução Francesa, que viu a Igreja despojada de sua riqueza e poder. O século XIX trouxe a perda dos Estados Papais e a unificação da Itália, deixando o papa como um autoproclamado "prisioneiro no Vaticano". Paradoxalmente, à medida que o poder temporal do Papado desaparecia, sua autoridade espiritual crescia, culminando na declaração da infalibilidade papal no Primeiro Concílio do Vaticano.

Os capítulos finais deste livro trarão a história até os dias atuais, examinando o papel do Papado no tumultuado século XX, um período marcado por guerras mundiais, ideologias totalitárias e genocídio. Olharemos para o marco do Segundo Concílio do Vaticano, que procurou abrir as janelas da Igreja para o mundo moderno, e o pontificado viajante de João Paulo II, que transformou o Papado em uma instituição verdadeiramente global. Consideraremos a histórica renúncia do Papa Bento XVI e a subsequente eleição do Papa Francisco, o primeiro papa das Américas, que trouxe um novo estilo e foco a este ofício antigo.

Esta é a história de uma instituição que teve de se reinventar constantemente para sobreviver. Adaptou-se a paisagens políticas mutantes, navegou por disputas teológicas traiçoeiras e respondeu às necessidades e expectativas em mudança de seus fiéis. O Papado do século XXI, com sua presença ativa na diplomacia internacional e nas redes sociais, está a mundos de distância da comunidade perseguida do primeiro século ou da corte quasi-imperial da Idade Média, mas uma corrente ininterrupta os conecta a todos.

Compreender a história do Papado é compreender um fio central no tecido da história mundial. Sua influência não se confina à esfera religiosa; moldou o direito, a política, a arte, a música e a literatura. Foi uma força tanto para a unidade quanto para a divisão, para o progresso e para a reação. Este livro visa apresentar esta história complexa e multifacetada de maneira direta e envolvente. É uma história humana, com todo o drama, tragédia e ocasional comédia que isso implica. É a história de como uma ideia — a de que um único homem deve liderar a Igreja de Cristo na Terra — perdurou por dois milênios, moldando o mundo de maneiras que seus primeiros adeptos jamais poderiam ter imaginado.


CAPÍTULO UM: A Sé Petrina: As Origens da Autoridade Papal

Todo o edifício do Papado assenta numa única questão momentosa: o que havia de tão especial no Bispo de Roma? Como o líder da comunidade cristã numa cidade, por mais importante que fosse, veio a ser reconhecido como o líder de uma fé global? A resposta, tecida ao longo de dois milénios de teologia, política e cultura, não começa num palácio romano, mas numa estrada empoeirada na província romana da Judeia, com um pescador chamado Simão. Este pescador, impulsivo e frequentemente falho, tornar-se-ia a figura central no argumento a favor do primado romano, a rocha sobre a qual, na tradição católica, a própria Igreja é edificada.

As reivindicações fundacionais para a autoridade papal radicam num punhado de passagens-chave dos Evangelhos do Novo Testamento. A mais significativa, a verdadeira pedra angular da doutrina petrina, encontra-se no Evangelho de Mateus. Nas cercanias de Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos seus discípulos quem eles creem que ele é. É Simão quem responde, com um clarão de discernimento que acredita vir diretamente de Deus: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo". A resposta de Jesus a esta confissão é o que prepara o cenário para tudo o que virá. "Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas", declara ele, "e eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mateus 16:17-19).

O significado deste momento mal pode ser superestimado. Jesus dá a Simão um novo nome, Petros em grego, que se traduz por "pedra" ou "rocha". Em seguida, parece fazer um jogo de palavras, declarando que sobre esta petra (uma grande rocha ou rocha madre) edificará a sua igreja. A concessão das "chaves do reino" e o poder de "ligar e desligar" — termos rabínicos para proibir e permitir ou proferir juízo — sublinham ainda mais esta concessão única de autoridade. Embora protestantes e ortodoxos tenham frequentemente interpretado "a rocha" como a confissão de fé de Pedro ou o próprio Cristo, a compreensão católica romana manteve-se firme: Jesus estava a investir Pedro, o homem, com um papel especial de liderança e autoridade sobre a incipiente comunidade de crentes.

Outras passagens reforçam este tema da preeminência de Pedro. No Evangelho de Lucas, durante a Última Ceia, Jesus diz a Pedro: "Simão, Simão, Satanás pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos" (Lucas 22:31-32). Aqui novamente, Pedro é distinguido, incumbido da missão de ser fonte de força para os outros apóstolos após o seu próprio fracasso e arrependimento previstos. Finalmente, no Evangelho de João, uma aparição pós-ressurreição de Jesus à beira do Mar da Galileia apresenta um comovente diálogo. Por três vezes, Jesus pergunta a Pedro: "Amas-me?" e por três vezes Pedro afirma o seu amor. Cada vez, Jesus responde com um mandato: "Apascenta os meus cordeiros", "Pastoreia as minhas ovelhas", "Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:15-17). Este diálogo é visto como uma comissão formal, confiando todo o rebanho de Cristo aos cuidados de Pedro.

Estas passagens bíblicas estabeleceram Pedro como líder, o "príncipe dos apóstolos". Mas para que isto se tornasse a base do Papado, uma segunda reivindicação histórica crucial tinha de ser estabelecida: a de que Pedro viajou para Roma, liderou a igreja ali e ali morreu como mártir. Curiosamente, o próprio Novo Testamento é silencioso quanto a este ponto. Os Atos dos Apóstolos, que cronica a propagação inicial do cristianismo, segue o ministério de Pedro em Jerusalém e na Judeia antes de deslocar o seu foco quase inteiramente para o Apóstolo Paulo. Após a sua fuga miraculosa da prisão em Jerusalém, Pedro "partiu e foi para outro lugar" (Atos 12:17), e o texto não fornece mais pormenores sobre o seu paradeiro. A extensa carta de Paulo à igreja em Roma, escrita por volta de 57 d.C., contém uma longa lista de saudações pessoais, mas não faz menção a Pedro, uma omissão aparentemente estranha se Pedro já fosse o líder estabelecido daquela comunidade.

Apesar do silêncio das Escrituras, uma tradição poderosa e consistente emergiu dentro de uma geração após a morte dos apóstolos, afirmando que Pedro de facto terminou a sua vida em Roma. A mais antiga evidência escrita provém de uma carta enviada pela igreja de Roma à igreja de Corinto por volta de 96 d.C. Este documento, conhecido como Primeira Carta de Clemente, foi escrito para resolver uma disputa que eclodira na comunidade coríntia, onde alguns líderes haviam sido depostos. Ao exortar o regresso à ordem, o autor, tradicionalmente identificado como o Papa Clemente I, aponta para os recentes exemplos heróicos dos apóstolos. Ele escreve: "Pedro, por iníqua inveja, suportou não um ou dois, mas numerosos trabalhos; e, tendo afinal sofrido o martírio, foi para o lugar de glória que lhe era devido." Segue-se imediatamente a menção do martírio de Paulo, ligando-os como os dois grandes pilares da igreja romana. Embora a carta não declare explicitamente onde Pedro foi martirizado, o contexto — uma carta de Roma apresentando estas figuras como "exemplos nobres da nossa própria geração" — torna Roma o local esmagadoramente provável.

Esta tradição fortaleceu-se e tornou-se mais explícita nos escritos do segundo século. Por volta de 110 d.C., Inácio, bispo de Antioquia, escreveu uma carta à igreja romana a caminho do seu próprio martírio ali. Nela, diz: "Não vos ordeno, como Pedro e Paulo." Isto implica que os cristãos romanos estavam acostumados a receber ordens de Pedro e Paulo, sugerindo uma autoridade especial associada a eles naquela cidade. Algumas décadas depois, por volta de 180 d.C., um bispo da Gália chamado Irineu de Lião escreveu uma vasta obra intitulada Contra as Heresias. Para Irineu, a chave para refutar grupos heréticos como os gnósticos, que alegavam possuir conhecimento secreto transmitido por Jesus, era apontar para o ensino público e verificável dos apóstolos transmitido através de uma linha ininterrupta de bispos nas principais igrejas.

Num passo fundamental, Irineu argumenta que, como seria demasiado tedioso enumerar a sucessão de bispos em todas as igrejas, ele se concentrará na "grandíssima, antiquíssima e universalmente conhecida Igreja fundada e organizada em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo." Em seguida, fornece uma lista dos bispos romanos, começando por Lino, que diz ter sido nomeado pelos apóstolos após a fundação da igreja, seguido de Anacleto e depois Clemente, o autor da carta a Corinto. O testemunho de Irineu é imensamente importante. Escrevendo de uma província distante, afirma como facto de conhecimento comum que Pedro e Paulo fundaram a igreja romana e que existe uma cadeia ininterrupta de sucessão a partir deles. No final do segundo século, outros escritores como Tertuliano no Norte de África também falavam abertamente do martírio de Pedro em Roma, mencionando especificamente que ele sofreu uma morte semelhante à do seu Senhor (i.e., crucifixão) sob o imperador Nero.

Durante séculos, esta poderosa tradição literária foi a evidência principal da presença de Pedro em Roma. Mas no século XX, um novo e dramático capítulo foi adicionado. Em 1939, operários a preparar um túmulo para o Papa Pio XI nos subterrâneos sob a Basílica de São Pedro romperam um pavimento e descobriram um vazio. Esta descoberta acidental levou o Papa Pio XII a autorizar uma escavação arqueológica secreta e sistemática da área diretamente sob o altar-mor. Ao longo da década seguinte, os escavadores descobriram uma visão espantosa: uma vasta necrópole romana, uma "cidade dos mortos", repleta de mausoléus pagãos dos séculos II e III.

A existência deste cemitério diretamente sob o coração da cristandade era surpreendente. Provava que o local da basílica não fora um espaço sagrado na Roma pagã, mas um cemitério comum nas encostas da Colina Vaticana. No centro desta necrópole, diretamente sob o altar papal, os arqueólogos encontraram um monumento simples datado de cerca de 160 d.C. Esta estrutura, conhecida como Edícula, consistia num nicho inserido numa parede, que passou a ser conhecida como "Parede Vermelha", ladeada por duas colunas. Ao lado, encontrava-se outra parede, a "Parede dos Graffiti", coberta de orações e invocações cristãs primitivas riscadas no reboco, muitas das quais invocavam Pedro. A própria Edícula situava-se diante de uma sepultura anterior, humilde, na terra.

A localização e antiguidade deste santuário sugeriam fortemente que se tratava do "troféu" de Pedro mencionado por um sacerdote romano chamado Gaio por volta do ano 200. Embora as escavações não pudessem provar definitivamente que a sepultura original continha os restos mortais do apóstolo, as evidências eram convincentes. Era um local venerado pelos cristãos como local de sepultura de Pedro desde meados do segundo século, pelo menos. Investigações subsequentes encontraram um nicho na Parede dos Graffiti contendo os ossos de um homem robusto com idade entre 60 e 70 anos, consistente com a tradição sobre a idade de Pedro no martírio. Uma arqueóloga italiana, Margherita Guarducci, decifrou mesmo uma ténue inscrição grega perto do nicho que leu como Petros eni — "Pedro está aqui". Em 1968, o Papa Paulo VI anunciou que as relíquias de São Pedro tinham sido identificadas de forma considerada convincente. Embora o debate académico continue, a arqueologia sob a Basílica de São Pedro fornece poderosa corroboração para a antiga tradição literária do martírio romano de Pedro.

As duplas reivindicações — a de que Cristo deu a Pedro uma autoridade única e a de que Pedro exerceu esta autoridade como chefe da igreja romana — foram os dois pilares sobre os quais se construiu a ideologia do Papado. O conceito que os unia era o de "sucessão apostólica". A ideia, articulada tão claramente por Irineu, era que a autoridade e o ensino dos apóstolos não eram um caos, mas eram transmitidos de forma ordenada e pública aos seus sucessores designados, os bispos. À medida que a igreja crescia e enfrentava desafios de interpretações concorrentes do cristianismo, este princípio de uma cadeia ininterrupta de comando até aos apóstolos tornou-se uma ferramenta vital para manter a unidade e definir a crença ortodoxa.

Neste enquadramento, o sucessor de Pedro ocupava naturalmente um lugar especial. Se Pedro era o chefe dos apóstolos, então o seu sucessor deveria ser o chefe dos bispos. A reivindicação de Roma era ainda reforçada pelo que era frequentemente chamado a sua "dupla apostolicidade" — era a sé não apenas de Pedro, mas também de Paulo. As duas maiores figuras da Igreja primitiva tinham ambas consagrado a comunidade romana com a sua pregação e selado com o seu sangue. Nenhuma outra igreja no mundo podia fazer tal reivindicação. Isto, combinado com o prestígio natural de Roma como capital do Império, dava aos pronunciamentos do seu bispo um peso único.

O exercício mais antigo desta autoridade especial pode ser visto na já referida Carta de Clemente aos Coríntios. Por volta de 96 d.C., a igreja de Roma, liderada pelo seu bispo Clemente, tomou a iniciativa de intervir numa disputa interna noutra igreja a centenas de quilómetros de distância, na Grécia. A carta é escrita num tom de admoestação firme mas fraterna, exortando os coríntios a cessar a sedição e restaurar os seus presbíteros depostos. O que é notável é que não há indicação de que os coríntios tivessem pedido esta intervenção. A igreja romana agiu por iniciativa própria, acreditando ter a responsabilidade de assegurar a paz e a ordem numa comunidade irmã. Não era um comando de um soberano, mas uma afirmação precoce e subtil de uma preocupação mais ampla e de um direito a ser ouvida.

Uma afirmação de autoridade romana mais enérgica e controversa surgiu um século depois, durante o pontificado de Vítor I (189-199). A questão em causa parece trivial hoje, mas era de grande importância para os primeiros cristãos: a data correta para celebrar a Páscoa. A maioria das igrejas, incluindo Roma, celebrava-a no domingo seguinte à Páscoa judaica. As igrejas na província da Ásia Menor, no entanto, seguiam uma tradição que alegavam vir do Apóstolo João, celebrando-a no 14.º dia do mês judaico de Nisã, independentemente do dia da semana. Os adeptos desta prática eram conhecidos como quartodecimanos (do latim para "décimo quarto").

Vítor, homem descrito como possuindo um "zelo ardente", estava determinado a impor a uniformidade. Convocou sínodos a realizar-se por todo o mundo cristão para tratar da questão. Quando Polícrates, bispo de Éfeso e porta-voz das igrejas asiáticas, escreveu a Vítor recusando educada mas firmemente abandonar o seu costume antigo, Vítor deu um passo drástico e sem precedentes: tentou excomungar todas as igrejas quartodecimanas, declarando-as fora da comunhão universal. Este gesto chocou muitos outros bispos, mesmo os que concordavam com Vítor sobre a datação da Páscoa. Irineu de Lião, o mesmo homem que enaltecera a linhagem apostólica da igreja romana, escreveu a Vítor exortando à moderação. Argumentou que bispos romanos anteriores, embora discordando da prática asiática, haviam mantido a comunhão com eles, e que a diversidade no costume podia realmente ser sinal de unidade na fé. A excomungação ameaçada por Vítor não parece ter sido universalmente aceite, mas o incidente foi um momento decisivo. Pela primeira vez, um Bispo de Roma reclamara a autoridade para cortar um grupo inteiro de igrejas do corpo dos fiéis por uma questão disciplinar.

O terceiro século viu os fundamentos teológicos desta autoridade tornarem-se mais explícitos. Surgiu uma grande controvérsia sobre a questão de saber se os cristãos que tinham sido batizados por hereges ou cismáticos precisavam de ser rebatizados se quisessem entrar na Igreja Católica. Cipriano, o influente bispo de Cartago no Norte de África, sustentava que qualquer batismo fora da única verdadeira Igreja era inválido. Em Roma, porém, o Papa Estêvão I (254-257) manteve a prática tradicional romana: desde que o batismo fosse realizado com a intenção e a fórmula corretas (em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo), era válido e não devia ser repetido.

A disputa tornou-se acesa. Cipriano, embora tivesse uma visão elevada do papel de Pedro como símbolo da unidade da Igreja, acreditava que todos os bispos participavam igualmente na comissão apostólica. Convocou concílios de bispos norte-africanos que apoiavam a sua posição. Estêvão, em resposta, tornou-se o primeiro papa conhecido a invocar explícita e vigorosamente o texto de Mateus 16 — a passagem "Tu és Pedro" — como base da sua autoridade. Argumentou que, como sucessor de Pedro, sentado na cathedra Petri (a cátedra de Pedro), tinha o direito e o dever de resolver a questão para toda a Igreja. Ameaçou romper a comunhão com os bispos norte-africanos e orientais que apoiavam o rebatismo. A crise só foi evitada pelo eclodir de uma nova perseguição sob o imperador Valeriano, na qual tanto Estêvão como, um ano depois, Cipriano seriam martirizados. Embora o conflito imediato não tenha sido resolvido, o argumento de Estêvão estabelecera um precedente crucial. A reivindicação escriturística do primado petrino estava agora diretamente ligada ao ofício de Bispo de Roma para justificar uma reivindicação de jurisdição universal.

Ao alvorecer do quarto século, na véspera da conversão do imperador Constantino, os fundamentos da autoridade papal estavam firmemente assentados. O Bispo de Roma era o chefe de uma grande e rica comunidade cristã na capital do império. A sua igreja era venerada pela sua conexão com os dois maiores apóstolos, Pedro e Paulo, e era amplamente vista como uma guardiã fiel da fé ortodoxa. Os seus líderes haviam, em várias ocasiões, afirmado o direito de guiar, e até disciplinar, outras igrejas. Embora esta reivindicação de autoridade universal de modo algum fosse universalmente aceite — como mostra a resistência de figuras como Irineu e Cipriano — a base teórica fora claramente articulada. A Sé de Roma era agora amplamente reconhecida como a Sé de Pedro. O palco estava preparado para uma transformação dramática, que veria o líder de uma seita outrora perseguida ascender a uma posição de influência inigualável num império recém-cristianizado.


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