Ecos da águia - Sample
My Account List Orders Book Page

Ecos da águia

Sumário

  • Capítulo 1 A Sombra da Águia
  • Capítulo 2 Sussurros da Villa
  • Capítulo 3 A Tempestade Eclode
  • Capítulo 4 À Deriva na Cidade
  • Capítulo 5 Pedras do Fórum
  • Capítulo 6 Fome e Esperança
  • Capítulo 7 Rostos na Multidão
  • Capítulo 8 Sombras do Mercado de Escravos
  • Capítulo 9 Um Brilho de Bondade
  • Capítulo 10 O Peso das Correntes
  • Capítulo 11 Lições de Sobrevivência
  • Capítulo 12 Sussurros de Rebelião
  • Capítulo 13 Navegando pela Subcidade
  • Capítulo 14 Encontros com a Corrupção
  • Capítulo 15 Laços Forjados no Fogo
  • Capítulo 16 Uma Aliança Perigosa
  • Capítulo 17 Provações do Caminho da Arena
  • Capítulo 18 Ecos de um Lar Perdido
  • Capítulo 19 Encontrando Ponto de Apoio
  • Capítulo 20 O Olhar do Imperador
  • Capítulo 21 Segredos Revelados
  • Capítulo 22 Um Caminho para a Redenção
  • Capítulo 23 O Longo Caminho para a Cura
  • Capítulo 24 Construindo de Novo
  • Capítulo 25 Paz Sob a Vigia da Águia
  • Capítulo 26 A Chama Duradoura

CAPÍTULO UM: A Sombra da Águia

O sol do meio-dia batia no peristilo da villa, torrando os ladrilhos de terracota até um ocre quente. Lá dentro, o ar era mais fresco, denso com o perfume de jasmim em flor e o murmúrio distante de abelhas. Marco, dez anos, com os joelhos empoeirados de escalar oliveiras, espiava por detrás de uma coluna de mármore. A irmã mais velha, Lívia, treze anos e já possuidora de uma graça tranquila que o irritava e o fascinava ao mesmo tempo, sentava-se junto ao tanque raso, o estilete riscando diligentemente uma tábua de cera. Números e letras, bagunçados mas propositados, formavam-se sob a sua mão. Ela recitava versos de Virgílio, a voz um zumbido suave quase tão reconfortante quanto o respingar da fonte.

— Lívia — sussurrou Marco, adentrando totalmente a sombra fresca. A voz rachou a meio do nome dela, um desenvolvimento recente e embaraçoso que sempre lhe valia um sorriso gentil da mãe e um suspiro de Lívia.

Ela ergueu os olhos, os olhos escuros, tão iguais aos da mãe, encontrando os dele. — Marco. Acabaram as explorações, então? — Não precisava perguntar. Os joelhos esfolados e o ramo emaranhado nos seus caracóis escuros eram prova ampla das atividades da manhã.

— Havia uma lagartixa — explicou ele, como se isso justificasse tudo. — A maior que já vi. Quase azul.

Os lábios de Lívia curvaram-se para cima. — Uma lagartixa? Uma descoberta verdadeiramente monumental, mano. — O tom era de provocação, mas não desagradável. Ela sempre teve esse dom — fazê-lo sentir-se ao mesmo tempo ridículo e inteiramente aceite no mesmo fôlego. Limpou a tábua com a ponta cega do estilete, abandonando Virgílio por enquanto.

— Vem, senta — disse ela, batendo na pedra fresca ao seu lado. — Conta-me da tua lagartixa azul. Tinha sandálias minúsculas?

Marco sorriu e deixou-se cair ao lado dela, espalhando um pouco de terra no mármore impecável. Um gemido escapou de Lívia, mas ela não o afastou. Ele descreveu a lagartixa em detalhes exagerados, acrescentando garras como garras de águias em miniatura e olhos que viam através da pedra. Lívia ouvia pacientemente, interpelando ocasionalmente com um comentário seco que o fazia rir.

A villa, aninhada nas colinas ondulantes nos arredores de Roma, parecia o centro do seu pequeno universo. Não era grandiosa como algumas das vastas propriedades mais próximas da cidade, mas era confortável, bem cuidada e cheia de um calor que vinha dos pais. O pai, Caio Valério, era um modesto proprietário de terras, gerindo os seus campos de trigo e oliveiras com uma competência silenciosa. A mãe, Júlia, supervisionava a casa com mão de ferro que de alguma forma conseguia manter envolta em veludo.

A vida ali era previsível, segura. As manhãs eram para lições com um cansado tutor grego que cheirava vagamente a vinho, ou para explorar os terrenos. As tardes eram passadas a ajudar a mãe, a praticar as letras, ou simplesmente deitados à sombra, a ver as nuvens flutuarem como navios pintados pelo vasto céu italiano. As noites reuniam a família para refeições simples, seguidas de histórias contadas pelo pai — contos de heróis romanos, ou às vezes, se Marco fosse particularmente persuasivo, antigas lendas da família da mãe no oriente.

Viviam sob o olhar vigilante da Águia. A Águia Romana, emblema das legiões, símbolo de um império no seu Zénite. O Imperador Trajano governava a partir de Roma, as suas campanhas expandindo as fronteiras, os seus projetos de construção remodelando a cidade. Os impostos eram cobrados eficientemente, as estradas mantidas, e a Pax Romana, a longa paz romana, parecia estender-se infinitamente em direcção ao horizonte. Para famílias como a deles, vivendo suficientemente longe das fronteiras inquietas, essa paz parecia absoluta. A villa era um remanso tranquilo no vasto rio do império.

Às vezes, um destacamento de soldados marchava pela estrada que passava perto das suas terras, o sol a reflectir-se nos seus capacetes, o ritmo das suas botas um trote surdo contra a terra. Marco corria para a borda da propriedade, escondendo-se atrás de um cipreste, só para os ver passar, imaginando-se um grande general a liderar homens para a batalha. Lívia ficava mais atrás, uma expressão mais pensativa no rosto, talvez a contemplar o puro poder que aqueles homens representavam.

O pai observava também, com um orgulho silencioso nos olhos. Tinha servido brevemente na juventude, embora raramente falasse disso. Ensinou a Marco formas básicas de espada com uma lâmina de treino de madeira e mostrou a Lívia como ler mapas do império, explicando a importância estratégica de províncias distantes com rios que soavam como música. Eles compreendiam, à maneira de uma criança, que o seu conforto e segurança estavam ligados a esse poder distante, a essa grande Águia que pousava invisível sobre as suas vidas.

Numa manhã de outono crisp, quando as folhas das vinhas estavam a ficar douradas e o ar trazia o cheiro de fumo de lenha, o pai regressou de uma viagem a Roma mais cedo do que o esperado. Costumava ficar vários dias, a tratar de negócios e a visitar familiares. Mas chegou antes do meio-dia, o rosto marcado por uma preocupação que nunca lhe tinham visto. A mãe foi recebê-lo ao portão, a sua habitual saudação alegre a fraquejar perante a expressão dele.

Falavam em tons baixos no átrio, as vozes demasiado baixas para Lívia e Marco, a jogar um jogo de ossinhos ali perto, ouvirem. Mas a tensão no ar era palpável. Os pais olhavam constantemente para eles, os olhos a conter uma tristeza que fez o estômago de Marco contrair-se. Mais tarde, à refeição da noite, o pai tentou parecer normal, contando uma piada forçada sobre um político que vira, mas o riso não lhe chegava aos olhos. A mãe estava mais quieta que o habitual, a mão frequentemente pousada no braço do pai.

Naquela noite, depois de as lâmpadas de azeite terem sido apagadas e a villa se ter instalado na escuridão, Marco esgueirou-se do seu pequeno quarto. Sabia que Lívia ainda estaria acordada. Ela lia frequentemente à fraca luz da lua que derramava pela janela, ou simplesmente jazia a pensar. Avançou suavemente pelo curto corredor até ao quarto dela.

Encontrou-a sentada junto à janela, envolta num cobertor fino, a olhar a paisagem prateada. — Lívia? — sussurrou.

Ela virou-se, os olhos arregalados na penumbra. — Marco? Que foi?

— O pai... ele estava preocupado, não estava?

Lívia suspirou, um som suave como o vento nos ciprestes. — Sim, estava.

— Porquê? — perguntou Marco, aproximando-se. — O que aconteceu em Roma?

Ela hesitou, a roer o lábio. — Não disse muito. Apenas... que as coisas estão incertas. Há... distúrbios. Longe, disse ele, mas...

— Mas o quê?

— Ele parecia com medo — terminou Lívia, a voz mal audível. — O nosso pai nunca tem medo.

Aquele sentimento de mal-estar vago instalou-se sobre eles como um sudário. "Distúrbios". "Incerto". Eram palavras que não associavam ao seu mundo estável. A sombra da Águia costumava parecer protecção; agora, pela primeira vez, parecia vasta e potencialmente ameaçadora.

Os dias que se seguiram foram marcados por uma ansiedade silenciosa. Os pais mantinham-se próximos, as conversas a parar abruptamente quando as crianças entravam na sala. O pai passava horas a debruçar-se sobre rolos, a testa franzida. A mãe começou a guardar algumas das suas posses mais valiosas em arcas, não para armazenamento, mas de um modo que sugeria preparação para uma viagem.

— Vamos para algum lado? — perguntou Marco à mãe uma tarde, a vê-la embrulhar cuidadosamente uma lâmpada de prata em pano.

Ela sorriu, um sorriso cansado e tenso. — Talvez, pequeno. Por precaução. É sempre sensato estar preparado.

Preparados para quê, Marco não sabia. Preparados para "distúrbios"? Parecia um jogo que lhes não era permitido compreender totalmente. Olhou para Lívia, que observava a mãe com uma expressão calma e inquietante. Parecia compreender mais do que ele, ou pelo menos, escondia melhor a sua confusão.

Uma noite, o pai chamou-os ao átrio depois da refeição. A habitual atmosfera leve estava ausente. Sentou-os, um de cada lado, e pegou-lhes nas mãos. O aperto era firme, tranquilizador, mas os olhos mantinham o mesmo ar de profunda preocupação.

— Meus filhos — começou ele, a voz baixa e séria. — O mundo fora da nossa villa pode por vezes ser um lugar difícil. A paz que conhecemos é preciosa, mas não está garantida para sempre.

Marco trocou um olhar preocupado com Lívia. Não era como as histórias que ele costumava contar.

— Estão a crescer — continuou o pai, olhando primeiro para Lívia, depois para Marco. — São fortes, ambos. Lívia, tens uma mente aguda e um coração firme. Marco, tens coragem e um bom espírito.

Apertou-lhes as mãos. — O que quer que aconteça, devem cuidar um do outro. São irmão e irmã. Esse laço é mais forte que a pedra, mais duradouro que o império. Entendem?

Acenaram, solenes. O peso das palavras dele pressionava-os. Não compreendiam totalmente o significado, não então, mas entendiam a gravidade. Cuidem um do outro. O simples mandato parecia um solene juramento.

Os "distúrbios" que o pai mencionara permaneciam vagos. Rumores filtravam-se através de servos ou visitantes — problemas na Dácia, agitação perto das fronteiras orientais, sussurros de deslealdade mais perto de casa. Para Marco, eram apenas sons distantes, como trovões do outro lado dos Montes Albano. Não lhe pareciam reais, não na realidade banhada de sol da sua villa.

Continuava a brincar nos olivais, a perseguir lagartixas, a praticar as letras (a contragosto) e as formas de espada (entusiasticamente). Lívia continuava a estudar, a ajudar a mãe, a apaziguar pacientemente a sua energia inesgotável. As vidas continuavam, mas a sombra tinha caído. A outrora inquestionada estabilidade parecia frágil, como gelo fino sobre um lago profundo e escuro.

Então veio o dia em que o mundo se fracturou. Chegou não com trovão ou fanfarra, mas com uma súbita nauseante. Era meio da manhã. Marco tentava ensinar um paciente cão de casa a buscar, Lívia estava lá dentro com a mãe a rever as contas da casa.

Houve um grito do portão, agudo e urgente. Seguido do som de botas pesadas e vozes rudes. Não o ritmo constante das legiões que conheciam, mas algo mais duro, caótico. Marco gelou, o pau a cair-lhe da mão. O cão gemeu e fugiu.

Lá de dentro, ouviu a mãe gritar. Um momento depois, Lívia apareceu à porta, o rosto pálido. — Marco! Entra! — sibilou ela, os olhos arregalados com um medo que ele nunca vira.

Ele não hesitou. Atravessou a porta a correr, juntando-se a ela no átrio fresco. A mãe estava lá, as mãos apertadas à boca, os olhos fixos na entrada da villa. O pai não estava visível. Os sons lá fora intensificavam-se — gritos, o clangor de metal, o estalo de madeira a partir-se.

— Que é isto? — sussurrou Marco, agarrando o braço de Lívia.

Ela puxou-o para um pequeno quarto de arrumos junto ao átrio, abrindo a pesada porta de madeira. — Rápido! Esconde-te!

— Mas o pai—

— Esconde-te apenas, Marco! Faz o que digo! — A voz era feroz, uma urgência desesperada que não admitia réplica. Empurrou-o para dentro, seguindo-o rapidamente, puxando a porta quase fechada, deixando só uma fresta para ver.

Aconchegaram-se juntos na escuridão, o cheiro de azeite guardado e ervas secas a encher o ar. Os sons lá fora invadiram o seu santuário — o estilhaçar de cerâmica, a viragem de móveis, a linguagem gutural e dura de homens que não eram amigos do pai.

Através da fresta da porta, Marco viu figuras silhuetadas contra a luz do sol no átrio. Eram homens de aspecto rude, não soldados, mas algo pior — bandidos, talvez, ou desertores. Moviam-se com eficiência brutal, varrendo a villa, levando tudo o que tinha valor, destruindo o que não podiam carregar.

Ouviu a voz da mãe, erguida em protesto, depois um grito abafado. Marco estremeceu, pressionando-se mais contra Lívia. O braço dela estava em volta dele, a puxá-lo para junto, o corpo um escudo. Sentia-a a tremer, mas o aperto dela nele era forte.

Depois ouviu a voz do pai, clara e imperativa, seguida de uma luta, um grunhido de dor, e silêncio. Um silêncio terrível, absoluto, que parecia engolir todos os outros sons. Marco queria gritar, correr para o pai, mas a mão de Lívia apertou-se sobre a boca dele, abafando o som.

Os homens moveram-se para o interior da villa, os passos a afastarem-se. Lívia esperou, a ouvir, a respiração a vir em arquejos curtos. O silêncio lá fora estendia-se, denso de pavor. Pareceu uma eternidade antes de ela empurrar devagar, cautelosamente, a porta o suficiente para saírem.

O átrio era uma cena de devastação. Móveis virados, cerâmica estilhaçada no chão, o conteúdo derramado. O ar cheirava a pó e medo. E os pais tinham partido.

Não apenas partido do átrio, mas partido inteiramente. Não havia sinal de luta além do caos inicial, nem corpos. Apenas um vazio onde o riso e o amor deles estavam havia momentos. A eficiência brutal dos atacantes era arrepiante. Não se demoraram a pilhar extensivamente; levaram as pessoas, ou talvez, garantiram que nunca regressariam.

Lívia ficou imóvel por um momento, os olhos arregalados de choque. Depois, um lampejo de outra coisa — resolução. Pegou na mão de Marco, o aperto firme. — Temos de ir — sussurrou, a voz rouca. — Agora.

Não pararam para recolher pertences, não pausaram para compreender o horror que se acabara de desenrolar. O instinto, cru e urgente, impelia-os. Escorregaram para a traseira da villa, pelo jardim familiar, passando os tranquilos olivais, em direcção à estrada que levava para longe de tudo o que alguma vez tinham conhecido.

A sombra da Águia, outrora símbolo de força protectora, agora parecia vasta e indiferente, projectando uma escuridão fria e longa sobre o seu mundo subitamente estilhaçado. A villa, o seu refúgio, estava perdida, e estavam sozinhos, duas figuras pequenas a fugir para a imensa e indiferente paisagem do Império Romano. A sua jornada tinha acabado de começar.


CAPÍTULO DOIS: Sussurros da Villa

Correram sem olhar para trás, as pernas nuas a arranharem-se na erva seca na orla do olival. Os sons de violência vindos da villa desvaneceram-se rapidamente, substituídos pelo bater frenético dos seus próprios corações e pelas respirações irregulares e ofegantes. Marco tropeçou, amparando-se num tronco nodoso de oliveira, o peito a arder, os olhos arregalados com lágrimas contidas. Lívia agarrou-lhe o braço, puxando-o para a frente, o próprio rosto uma máscara de medo, mas os olhos fixos na linha distante de ciprestes que assinalava a estrada.

O trilho familiar através do olival, habitualmente um percurso para explorações preguiçosas e jogos, parecia agora estranho e ameaçador. Cada ruído de folhas, cada estalo de um ramo seco sob os pés, soava como o regresso dos agressores. Não falavam, não conseguiam falar, o terror um nó frio nas gargantas. Apenas corriam, impulsionados por uma necessidade primária de distância face ao horror que tinham testemunhado, ou melhor, do qual tinham fugido.

Chegar ao limite da propriedade pareceu cruzar uma barreira invisível. Num momento estavam na sua própria terra, no seguinte pisavam a estrada empoeirada e não pavimentada que conduzia ao mundo mais vasto. O sol do meio-dia, tão quente e reconfortante horas antes, parecia agora duro e indiferente, projectando sombras longas e finas à sua frente. Pararam apenas quando a villa deixou de ser visível, escondida por um recorte das colinas.

Deixaram-se cair no chão, junto à estrada, ocultos da vista por um emaranhado de alecrim silvestre. O silêncio ali era diferente da quietude da sua casa; era vasto e vazio, amplificando o seu isolamento. Marco enterrou o rosto no flanco de Lívia, deixando finalmente cair as lágrimas, silenciosas e quentes contra a túnica simples dela. Lívia segurou-o com força, acariciando-lhe o cabelo, o próprio corpo a tremer com soluços mudos. Apegaram-se um ao outro, duas pequenas ilhas num mar subitamente ilimitado e terrível.

Eventualmente, o choque cru e imediato começou a recuar, deixando para trás um vazio vasto e dolorido. As lágrimas secaram, deixando-lhes os olhos a arder e a boca seca. A fome, uma dor surda inicialmente, começou a impor-se. Não comiam desde um pequeno-almoço leve. A rotina familiar das refeições, de um lar confortável e de pais vigilantes, estava destroçada. Agora, a responsabilidade pela sobrevivência deles recaía unicamente nos ombros franzinos de Lívia.

Ela ergueu-se, limpando o rosto com as costas da mão. — Não podemos ficar aqui — disse, a voz rouca. — Podem procurar-nos.

Marco anuiu, embora a ideia de se mover parecesse impossivelmente difícil. As pernas doíam, a cabeça latejava, e tudo o que queria era encolher-se e desaparecer. Mas Lívia já observava a estrada, o olhar agudo e avaliador.

— Temos de nos afastar mais — continuou ela, mais para si do que para ele. — Para que lado? Olhou na direcção de Roma, depois para trás, na direcção de onde tinham vindo, na direcção das quintas e villas espalhadas pelo campo. Voltar era impensável. Avançar para o desconhecido parecia igualmente assustador.

— Roma — sussurrou Marco, o nome da grande cidade a soar simultaneamente impossivelmente distante e o único lugar de segurança potencial que lhe ocorria. O pai ia a Roma para negócios. Era o coração do império. Decerto haveria ajuda lá.

Lívia considerou-o, a testa franzida. Roma ficava longe, vários dias de caminhada a pé. Não tinham mantimentos, nem dinheiro, nada além da roupa que vestiam. Mas era também a maior cidade que conheciam, um lugar onde duas crianças perdidas poderiam desaparecer na multidão, ou talvez encontrar alguém que pudesse ajudar. A villa, mesmo que não tivesse sido atacada, já não era um refúgio. Era um lugar de fantasmas e de perda inimaginável.

— Roma — concordou ela, a palavra pesada de incerteza. — É o único lugar que conhecemos.

Levantaram-se, os membros rijos e pesados. A estrada estendia-se à sua frente, uma fita de pó pálido sob o céu indiferente. Não havia plano grandioso, nem mapa, apenas a esperança desesperada de que colocar distância entre si e a villa os levaria a algum lugar mais seguro. Começaram a caminhar, de mãos dadas, as suas figuras pequenas anuladas pela vastidão da paisagem.

O sol subiu mais alto, batendo na estrada exposta. O calor era opressivo, e a sede tornou-se uma distração roedora. Passaram por campos ocasionais de grão a amadurecer e quintas distantes, mas o medo de encontrar alguém, de serem vistos e interrogados, mantinha-os escondidos ao lado da estrada ou atrás de sebes sempre que ouviam sons de carros ou vozes. O mundo parecia subitamente hostil, cada sombra uma ameaça potencial.

Caminharam durante o que pareceu uma eternidade, o ritmo cadenciado do ranger das sandálias no cascalho o único som durante longos trechos. O medo inicial de Marco embotara numa miséria cansada. Os pés doíam, o estômago rosnava, e a imagem do átrio saqueado e o silêncio após a voz do pai passavam e repassavam na sua mente. Não parava de olhar para trás, meio à espera de ver figuras a persegui-los.

Lívia, embora visivelmente cansada, mantinha um passo firme. Observava constantemente o que os rodeava, os olhos não deixando escapar nada. Parecia mais velha do que os seus treze anos agora, a graça fácil substituída por uma determinação tensa. A irmã que provocava brincando tinha desaparecido, substituída por uma protectora sombria. Guiava-o à volta de poças, escolhia o lado sombreado da estrada quando possível, e mantinha um aperto firme na mão dele, uma âncora constante no caos rodopiante das suas emoções.

À medida que o sol iniciava a sua descida lenta em direcção ao horizonte, pintando o céu em tons de laranja e roxo, souberam que não podiam continuar a caminhar na escuridão. Precisavam de abrigo, algures escondido e seguro. Desviaram-se da estrada, abrindo caminho através da vegetação emaranhada em direcção a um pequeno bosque de árvores numa encosta.

Encontrar um local adequado foi difícil. O terreno era irregular, coberto de pedras agudas e arbustos espinhosos. Eventualmente, encontraram uma pequena cavidade sob um grande carvalho antigo, os ramos a estenderem-se como braços nodosos. Não era muito, mas oferecia alguma ocultação e uma sensação de estarem fora da estrada exposta.

Aconchegaram-se juntos, a casca rugosa da árvore contra as costas. O ar arrefeceu rapidamente à medida que o crepúsculo se adensava. Marco estremeceu, puxando a túnica fina mais junto a si. Lívia passou o braço em volta dele, partilhando o seu calor escasso. O silêncio do campo à noite era profundo, quebrado apenas pelo chilrear de insectos invisíveis e o piu longínquo de uma coruja.

O sono era um conforto distante e ilusório. Cada som desconhecido sobressaltava-os, acordando-os. O sussurro das folhas ao vento soava a passos; o estalo de um ramo parecia um intruso. Marco pressionou-se contra Lívia, encontrando uma pequena medida de conforto na presença dela. Sentia-a a tremer também, apesar dos esforços para se manter forte.

Pensou na villa, quente e segura, cheia dos cheiros reconfortantes da cozinha e dos sons familiares dos pais a moverem-se. Pensou na sua cama pequena, macia e familiar. O contraste com a realidade actual — frio, fome, exposição — era gritante e comovente. As lágrimas voltaram a surgir, mas ele engoliu-as. Não queria preocupar Lívia mais.

— Foram-se embora, Lívia? — sussurrou na escuridão, a voz pequena e trémula.

Ela hesitou por um longo momento. — Não sei, Marco — respondeu finalmente, a voz baixa. — Mas temos de assumir que podem ainda estar à procura. É por isso que temos de continuar a mover-nos.

Ele não insistiu. Entendeu, com uma certeza gelada, que "eles" se referia aos homens que tinham invadido a sua casa, que tinham levado os pais. A conclusão não dita, a de que os pais se tinham ido para sempre, pairava pesada no ar entre eles. Eram órfãos agora, a palavra pesada e desconhecida.

Adormeceram e acordaram num sono agitado, aconchegados para calor e conforto. Quando o primeiro clarão de luz cinzenta apareceu no horizonte, Lívia mexeu-se. — Vamos — murmurou, a voz grossa de sono. — Temos de ir.

O segundo dia da viagem foi um borrão de caminhada, fome e exaustão crescente. O choque inicial dissipara-se, substituído por uma dor surda e persistente nos músculos e um vazio roedor no estômago. A paisagem permanecia bela mas indiferente — colinas ondulantes, vinhas distantes, quintas espalhadas. Mas nada daquilo lhes pertencia, e sentiam-se intrusos indesejados.

Tentaram encontrar algo para comer. Marco avistou alguns bagos silvestres à beira da estrada, mas Lívia deteve-o. — Não sabemos se são seguros, Marco. O pai avisava-nos sempre. A memória das lições cautelares do pai trouxe uma nova vaga de tristeza. Ele tinha-lhes ensinado tanto, lições que agora pareciam tragicamente incompletas.

Passaram por um pequeno ribeiro e ajoelharam-se agradecidos para beber a água fresca, conchando-a nas mãos. Foi o único sustento que tiveram durante todo o dia. O sabor era puro e refrescante, um pequeno conforto fugaz na sua miséria.

Viraram mais gente na estrada hoje — agricultores a caminho do mercado com carros carregados de produtos, viajantes a cavalo, até um pequeno grupo de soldados a marchar com determinação cansada. Cada encontro fazia-os correr para se esconder, os corações a bater descompassadamente. Tinham medo de todos, vendo perigo potencial em cada rosto. O mundo que outrora parecera seguro e previsível parecia agora um labirinto de ameaças.

A resiliência de Lívia era notável. Apesar do próprio medo e exaustão, mantinha-os em movimento. Falava pouco, poupando energia, mas a sua presença era uma fonte constante de força para Marco. Seguia-a sem questionar, confiando nela implicitamente. Era tudo o que lhe restava.

Passaram a segunda noite noutro local isolado, desta vez uma vala seca escondida por arbustos densos. Era menos confortável que o carvalho, mas parecia mais seguro, mais oculto. A fome era mais aguda esta noite, os estômagos a doer. Marco esteve acordado muito tempo, a ouvir os sons da noite, a mente a correr com perguntas sem resposta. O que tinha acontecido aos pais? Quem eram aqueles homens? Por que tinham vindo à sua villa?

Queria perguntar a Lívia, mas ela parecia perdida nos próprios pensamentos, a olhar para o fio de lua visível através das folhas. Ele sabia que ela também não tinha as respostas. Eram apenas duas crianças, à deriva num mundo que de repente se tornara frio e brutal.

No terceiro dia, a sorte mudou ligeiramente. Enquanto contornavam a borda de um campo, na esperança de evitar a estrada principal, viram uma figueira carregada de figos maduros. Ficava na extremidade da propriedade, e parecia improvável que alguém notasse se apanhassem alguns. Lívia hesitou, mas a necessidade era demasiado grande.

Com cautela, aproximaram-se da árvore. Lívia esticou-se, puxando os figos macios e doces. Comeram-nos rapidamente, o sabor celestial contra as bocas ressequidas e os estômagos vazios. Não era uma refeição completa, mas deu um impulso de energia e esperança muito necessários. O simples acto de comer algo doce e nutritivo pareceu uma pequena vitória contra a adversidade esmagadora.

Continuaram a viagem, os passos um pouco mais leves depois dos figos. A paisagem começou a mudar subtilmente. As quintas tornaram-se mais frequentes, as villas maiores e mais imponentes. Viram mais tráfego nas estradas, mais sinais de actividade humana. Isso significava que tinham de ter ainda mais cuidado, esconder-se mais vezes, mover-se apenas quando a estrada estava livre.

Começaram também a ver provas mais directas dos "distúrbios" que o pai tinha insinuado. Passaram por uma quinta queimada, os muros de pedra enegrecidos, o telhado desabado. Mais adiante, viram soldados a patrulhar a estrada, as expressões sombrias. Esses espectáculos eram lembretes arrepiantes de que a violência que tinha estilhaçado as suas vidas não era um evento isolado, mas parte de uma agitação mais ampla. A sombra da Águia, parecia, não era apenas um símbolo de poder, mas também de conflito e instabilidade.

Lívia mantinha-os em movimento constante, o olhar fixo no horizonte distante onde sabiam que ficava Roma. A cidade tornou-se o foco deles, o destino, o único refúgio potencial que tinham. Já não era apenas o lugar que o pai visitava; era um símbolo de esperança, uma hipótese de sobrevivência.

À medida que os dias passavam, o choque e o medo iniciais assentaram numa rotina sombria. Acordar, caminhar, esconder, procurar comida e água, encontrar abrigo, dormir mal, repetir. A roupa ficou suja e rota, a pele suja, os rostos mais magros. Os joelhos de Marco eram uma massa de crostas, e Lívia tinha um corte fundo na mão de um arbusto espinhoso. Estavam muito longe das crianças bem cuidadas da villa.

Aprenderam a mover-se silenciosamente, a detectar perigos potenciais à distância, a fundir-se nas sombras. Tornaram-se intensamente conscientes dos ritmos da estrada, dos sons de passos ou rodas a aproximarem-se. O mundo tinha-lhes dado uma lição brutal de sobrevivência, despindo-lhes a inocência camada a camada.

Numa tarde, enquanto caminhavam num trecho de estrada ladeado de pinheiros altos, Marco ouviu um som que o fez gelar. Era um som familiar, que trouxe uma nova vaga de dor e saudade — o ladrar longínquo de um cão. Não de um cão qualquer, mas um som que lhe lembrava o seu próprio cão de casa, aquele que tinha tentado ensinar a buscar naquela manhã terrível.

Parou, esforçando-se por ouvir. Lívia parou com ele, a mão a encontrar imediatamente a dele. O ladrar soou novamente, mais fraco desta vez, vindo da direcção da estrada atrás deles. Por um momento, Marco sentiu uma vontade avassaladora de correr para trás, de de alguma forma encontrar o seu cão, um último elo com o lar perdido.

Lívia apertou-lhe a mão com força. Não disse nada, mas os olhos, cheios de uma dor partilhada, disseram-lhe que não podiam. A villa tinha ido, e tudo o que lhe estava associado estava ou destruído ou levado. Demorar-se nisso, tentar recuperar pedaços do passado, era uma distracção perigosa. A única esperança estava em avançar.

Ele anuiu, engolindo em seco, a dor no peito insuportável. Virou o rosto da direcção do som e focou-se na estrada à frente. As memórias da villa teriam de permanecer apenas isso — sussurros no fundo da sua viagem, lembranças dolorosas do que tinham perdido, mas não algo a que pudessem voltar.

Quando o sol começou a descer mais baixo, projectando sombras longas que se estendiam pelos campos, viram-no. Ao longe, uma mancha enevoada no horizonte. Ainda ficava longe, talvez mais um ou dois dias de caminhada, mas não havia como enganar. O contorno de edifícios, a sugestão de uma cidade vasta e tentacular.

Roma.

A visão encheu-os com uma mistura de alívio e temor. Era o destino deles, a única esperança, mas era também uma entidade desconhecida, um lugar de milhões de pessoas, de ruído e caos, um contraste gritante com o campo tranquilo que tinham conhecido. O pai tinha falado da grandeza de Roma, dos seus edifícios magníficos, dos seus mercados buliçosos. Mas a descrição do livro também mencionava ruas brutais, mercados de escravos, e oficiais corruptos.

Não falaram enquanto caminhavam na sua direcção, a cidade silenciosa a crescer a cada passo. Os sussurros da villa, os ecos do lar e da família perdidos, ainda os seguiam, uma tristeza constante nos corações. Mas à frente estava Roma, uma cidade de águias e imperadores, um lugar onde esperavam encontrar segurança, ou pelo menos, uma hipótese de sobreviver. A viagem deles estava longe de terminar; estava apenas a mudar das estradas silenciosas do campo para as ruas implacáveis do coração do império. O teste da sua resiliência, do seu laço, estava prestes a começar a sério.


This is a sample preview. The complete book contains 27 sections.