Sussurros do Coração - Sample
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Sussurros do Coração

Sumário

  • Capítulo 1 Um Encontro Inesperado
  • Capítulo 2 O Enigmático Sr. Blackwood
  • Capítulo 3 Um Toque de Desafio
  • Capítulo 4 Olhares Roubados, Votos Silenciosos
  • Capítulo 5 O Sótão do Artista
  • Capítulo 6 Sussurros nos Salões
  • Capítulo 7 Um Coração Dividido
  • Capítulo 8 As Restrições da Nobreza
  • Capítulo 9 Encontros Secretos, Esperanças Nascentes
  • Capítulo 10 A Revelação de Julian
  • Capítulo 11 Lealdades Familiares Postas à Prova
  • Capítulo 12 A Festa no Jardim de Verão
  • Capítulo 13 Sombras da Dúvida
  • Capítulo 14 Uma Ligação Perigosa
  • Capítulo 15 O Peso da Expectativa
  • Capítulo 16 O Apelo de Julian
  • Capítulo 17 A Encruzilhada de Evelyn
  • Capítulo 18 Rumores se Espalham
  • Capítulo 19 Uma Confidente Improvável
  • Capítulo 20 O Ultimato
  • Capítulo 21 Uma Escolha Desesperada
  • Capítulo 22 A Coragem de Amar
  • Capítulo 23 Enfrentando o Julgamento da Sociedade
  • Capítulo 24 Correntes da Convenção Quebradas
  • Capítulo 25 Um Amor Forjado no Fogo
  • Capítulo 26 Uma Nova Aurora para Dois Corações

CAPÍTULO UM: Um Encontro Inesperado

O sol do fim de tarde, uma lavagem diluída de damasco e rosa, atravessava obliquamente as altas janelas com mútuas da Casa Harrington, projetando sombras alongadas pelo tapete Aubusson na sala de estar matinal. Lady Evelyn Harrington, contudo, encontrava pouco consolo no suave declínio do dia ou no conforto opulento de seu entorno. Um livro jazia aberto, não lido, sobre seu colo, sua poesia romântica falhando em capturar um espírito que ansiava por versos ainda não escritos, por experiências que se estendiam além dos jardins meticulosamente aparados de sua casa em Mayfair.

Suspirou, um som mal audível acima do ritmo distante e cadenciado de cascos no calçamento de paralelepípedos lá embaixo — um som que, para Evelyn, frequentemente parecia o tic-tac do relógio de sua própria existência constrangida. Aos vinte e dois anos, era considerada no auge de sua temporada, um período que sua mãe, Lady Beatrice Harrington, abordava com a intensidade estratégica de um general experiente mobilizando tropas. Pretendentes, impecáveis em sua linhagem e entediantes em sua conversa, haviam desfilado diante dela com uma regularidade que Evelyn considerava tanto exasperante quanto levemente cômica.

Seus dedos traçavam o couro trabalhado da encadernação da coletânea de poesias. Fôra um presente de Lorde Ashworth, um homem cujos atributos primários pareciam ser uma impressionante coleção de coletes e uma habilidade inacreditável de discorrer sobre o tempo por uma hora completa sem repetição. Evelyn conteve um arrepio. A perspectiva de uma vida inteira discutindo padrões meteorológicos, por mais variados que fossem, era de fato sombria.

— Inquieta de novo, minha querida?

Evelyn virou-se para ver sua tia Augusta, a irmã mais nova de seu pai, entrando no salão. Lady Augusta Pomeroy era uma lufada de ar relativamente fresco na atmosfera muitas vezes sufocante da Casa Harrington. Uma viúva de meios confortáveis e de uma disposição ainda mais confortável, possuía um espírito irônico e uma visão refrescantemente pragmática dos constrangimentos da sociedade, mesmo que os navegasse com praticada facilidade.

— É assim tão óbvio, tia? — Evelyn conseguiu esboçar um sorriso.

— Para mim, talvez. Você tem aquele ar, menina. Aquele que geralmente precede uma tentativa de escalar o muro do jardim ou uma visita não anunciada às cocheiras para 'inspecionar os cavalos' — disse tia Augusta, acomodando-se numa poltrona próxima com um brilho de cumplicidade no olhar. — Sua mãe está ocupada no momento com os arranjos para a soirée desta noite. Acredito que ela está debatendo a colocação precisa dos vasos de samambaia para melhor 'incentivar a socialização' e 'desencorajar os que ficam encostados na parede'. Uma tarefa de importância monumental, naturalmente.

Evelyn riu. — Pobre mamãe. Ela se preocupa tanto. E eu, parece, sou sua fonte mais proeminente de preocupação.

— Você é apenas... espirituosa, Evelyn. Uma qualidade um tanto subvalorizada em jovens damas de nossa posição, mas não isenta de méritos, asseguro-lhe. — Tia Augusta fez uma pausa, seu olhar se suavizando. — Contudo, mesmo uma potranca espirituosa deve ocasionalmente permitir-se ser guiada, se apenas para evitar pisotear completamente os canteiros.

— E qual canteiro específico corro o risco de pisotear hoje? — perguntou Evelyn, com um toque de diversão no tom.

— Talvez o cultivado pelo jovem Lorde Beaumont? Sua mãe cantou seus louvores para mim por uma hora inteira ontem. Aparentemente, ele tem um domínio bastante louvável da administração de propriedades.

Evelyn fez uma careta divertida. — Suas propriedades, tenho certeza, são impecavelmente administradas. Sua conversa, contudo, parece girar unicamente em torno de rotação de culturas e drenagem. Fascinante, estou certa, se por acaso se for um nabo.

Tia Augusta riu, um som genuíno e sonoro. — Ah, minha querida Evelyn. Você exige bastante da vida, não é? Mais do que réplicas espirituosas e um perfil aprazível.

— Isso é tão irrazoável? — contrapôs Evelyn, seu olhar voltando à janela. — Desejar uma conexão que agite a mente além de satisfazer a convenção? Esperar por uma faísca, não apenas por um casamento conveniente?

— Não é irrazoável, criança. Apenas... raro. — A voz de tia Augusta estava mais suave agora. — E às vezes encontrado nos lugares mais inesperados.

Foi precisamente este sentimento, este sussurro tênue e tentador de 'lugares inesperados', que levou Evelyn a aceitar o convite pouco convencional de sua tia para a tarde. Enquanto Lady Beatrice estava absorta em samambaias e estratagemas sociais, tia Augusta propusera uma breve excursão, não ao desfile habitual de emporiums de Bond Street ou a uma visita educada a outra família titulada, mas a uma pequena galeria de arte, um tanto fora do caminho, perto de Covent Garden. Ela exibia o trabalho de artistas novos e, portanto, levemente escandalosos.

— Tem certeza de que sua mãe não se oporia demasiadamente à nossa pequena aventura, tia? — Evelyn perguntara anteriormente, a perspectiva já acendendo uma pequena chama de antecipação.

— O que Beatrice não sabe não perturbará suas sensibilidades meticulosas — respondera tia Augusta com uma piscadela. — Além disso, uma pequena exposição à arte, mesmo da variedade 'moderna', só pode ampliar os horizontes. E quem sabe, podemos até encontrar algo sobre que conversar além do tempo ou das mais recentes perspectivas matrimoniais.

E assim, sob o pretexto de uma expedição de compras de tecidos para um novo vestido de baile — uma artimanha que satisfazia as preocupações práticas de sua mãe — Evelyn viu-se descendo da discreta carruagem de sua tia em uma rua estreita e movimentada, viva com um tipo de energia diferente da que estava acostumada. O ar ali vibrava com os pregões dos vendedores ambulantes, o ronco de carroças de entrega e o burburinho de uma multidão muito mais variada e menos constrangida do que a sociedade educada de Mayfair. Era intoxicante.

A própria galeria era um estabelecimento modesto, enfiado entre um livreiro e um tabaqueiro, sua única janela em arco exibindo uma paisagem impressionista surpreendentemente vibrante que parecia brilhar com uma luz interior. No interior, o espaço era pequeno mas surpreendentemente bem iluminado, as paredes adornadas com telas que pulsavam com cor e perspectivas não convencionais. Não havia grandes cenas históricas ou retratos rígidos de antepassados perucados ali. Em vez disso, havia vislumbres da vida cotidiana, renderizados com uma vivacidade e uma honestidade emocional que Evelyn achou estranhamente convincentes.

Tia Augusta, fiel à sua palavra, parecia genuinamente interessada, detendo-se diante de uma natureza-morta de frutas que pareciam prestes a rolar da tela. Evelyn, contudo, viu sua atenção divagar, seu olhar varrendo os outros visitantes. Eram um grupo misto: alguns senhores idosos que pareciam colecionadores sérios, um punhado de damas elegantemente vestidas que cochichavam atrás de suas luvas, e vários homens mais jovens com expressões intensas e punhos levemente manchados de tinta.

Foi ao contornar um biombo temporário, colocado para exibir uma série de esboços menores, que ela o viu pela primeira vez.

Ele estava diante de uma grande tela, uma paisagem marítima de ondas cinza-esverdeadas tumultuosas batendo contra uma face de penhasco escura e sombria. Era alto, embora não ostensivamente imponente, com um corpo esguio vestido num casaco escuro, um tanto fora de moda mas bem cortado. Suas costas estavam voltadas para ela, mas havia algo em sua postura, uma intensidade focada enquanto estudava a pintura, que prendeu sua atenção. Seus cabelos escuros, mais longos do que estritamente convencional, encachavam-se levemente na nuca.

Como se sentisse seu olhar, ele virou-se, não abruptamente, mas com um movimento lento e ponderado. E Evelyn viu-se olhando para o par de olhos mais notável que já vira. Eram de um cinza tempestuoso profundo, salpicados de toques de azul e verde, e continham uma expressão de tamanha inteligência aguda e intensidade silenciosa que ela sentiu um sobressalto curioso, uma consciência súbita e inesperada.

Não era classicamente belo à maneira de seus pretendentes prescritos. Seus traços eram fortes, quase severos — um nariz reto, uma linha de maxilar firme, uma boca que sugeria capacidade tanto para o humor quanto para a melancolia. Havia sombras tênues sob seus olhos, como se por falta de sono ou concentração intensa, e uma pequena cicatriz quase imperceptível logo acima da sobrancelha esquerda que apenas aumentava sua aparência intrigante, em vez de convencionalmente polida.

Por um momento, nenhum dos dois falou. O zumbido baixo de conversas na galeria pareceu esmaecer, os outros visitantes recuando para uma periferia desfocada. Havia apenas os dois, e a fúria selvagem e elementar do mar pintado entre eles. Foi um momento estranho, suspenso, uma respiração contida no ritmo ordinário da tarde.

Evelyn, geralmente tão rápida com uma réplica espirituosa ou uma observação composta, viu-se incomumente sem palavras. Sentiu um calor subir-lhe às faces, um rubor que não experimentava desde os dias de sala de aula. Era desconcertante, essa súbita perda de compostura.

Ele ofereceu uma leve inclinação de cabeça, um gesto polido que mantinha certa reserva. — Uma peça poderosa, não é? — disse ele, sua voz um baixo barítono, suave e culto, ainda que com um timbre subjacente que ressoou dentro dela.

— É — conseguiu Evelyn, sua voz um pouco mais ofegante do que gostaria. — Quase... avassaladora. — Gesticulou vagamente na direção das ondas batendo. — Quase se pode sentir a espuma.

Um fantasma de sorriso tocou-lhe os lábios. — De fato. O artista certamente capturou o espírito bruto e indomado do oceano, em vez de seu comportamento mais plácido de sala de estar.

Sua observação, tão sintonizada com seus próprios pensamentos não ditos, surpreendeu-a. A maioria dos cavalheiros que conhecia teria comentado a técnica, ou talvez o valor potencial da peça, não sua alma.

— O senhor é familiarizado com a obra do artista? — perguntou Evelyn, a curiosidade sobrepujando seu momentâneo desconcerto.

— Pode-se dizer que tenho um conhecimento passageiro de suas lutas — respondeu ele, com uma nota irônica, quase autodepreciativa na voz. Seu olhar voltou-se para a pintura, depois retornou a ela, direto e avaliador, mas não impertinente. — E a senhora, minha dama? É uma conhecedora da escola moderna, ou uma conversa recente?

Evelyn sentiu um sorriso genuíno curvar-lhe os lábios. — Nenhum dos dois, confesso. Apenas uma alma inquisitiva, talvez aventurando-se um pouco além de meus pastos habituais.

— As jornadas mais recompensadoras frequentemente começam assim — murmurou ele, seus olhos sustentando os dela por uma fração a mais do que o estritamente necessário.

— Evelyn, minha querida! Aí está você! — A voz alegre de tia Augusta cortou a imobilidade carregada, e Evelyn sentiu uma pontada de algo parecido com decepção. Sua tia aproximou-se, seu olhar abrangendo Evelyn e depois, com um lampejo sutil de interesse, o cavalheiro ao seu lado.

— Vejo que estão admirando o Turner — disse tia Augusta, embora seus olhos avaliassem o homem mais do que a obra. — Bastante dramático, não é? Embora talvez um tanto perturbador para um boudoir.

O sorriso do cavalheiro alargou-se levemente. — De fato, minha dama. Exige uma constituição bastante robusta, ou pelo menos um cômodo com um horizonte muito distante.

Tia Augusta, nunca uma de perder uma oportunidade de reconhecimento social, estendeu a mão enluvada. — Augusta Pomeroy — anunciou ela. — E esta é minha sobrinha, Lady Evelyn Harrington.

A formalidade da apresentação pareceu cristalizar o momento, trazendo-o de volta aos limites da convenção social, ainda que a corrente subterrânea de algo mais, algo menos definível, permanecesse.

O cavalheiro tomou a mão de sua tia brevemente. — Um prazer, Lady Pomeroy, Lady Evelyn. — Fez uma pausa, e por um instante Evelyn pensou que ele poderia não oferecer seu próprio nome, adicionando outra camada à sua persona intrigante. Então, com uma cortesia leve, quase relutante, disse: — Julian Blackwood. A seu dispor.

Blackwood. O nome era desconhecido para Evelyn, certamente não um que circulasse nas gaiolas douradas da aristocracia. Não havia título, nenhuma propriedade mencionada, meramente o nome, pronunciado com uma confiança tranquila que não necessitava de mais enfeites.

— Sr. Blackwood — reconheceu tia Augusta, seu tom polido mas carregando a mais tênue sugestão de inquérito. — É artista, talvez? Ou um colecionador com um olhar perspicaz?

— Dabito com tintas, Lady Pomeroy — concedeu ele, seu olhar voltando brevemente à paisagem marítima tempestuosa. — Embora tema que meus esforços sejam mais semelhantes a lutar com os elementos do que capturá-los com qualquer finesse. — Seus olhos então encontraram os de Evelyn novamente. — Mais frequentemente, simplesmente aprecio as lutas dos outros.

Havia uma modéstia em suas palavras que Evelyn suspeitava não ser totalmente fingida, ainda que acoplada a uma presença inegável, um ar de auto-posse que ela achava cada vez mais cativante. Ele era diferente de qualquer um que já conhecera — uma curiosa mistura de artista, filósofo e talvez, divagou ela, um homem com segredos.

— Bem, Sr. Blackwood — disse tia Augusta, seu sorriso ainda no lugar — foi um interlúdio interessante. Estávamos justamente a partir. O mundo dos tecidos e da moda aguarda, infelizmente. — Lançou a Evelyn um olhar sutil, um lembrete de seu propósito oficial.

Evelyn sentiu uma relutância em partir, um desejo de prolongar aquela conversa inesperada, de saber mais sobre aquele enigmático Sr. Blackwood e o mundo que ele parecia habitar, um mundo tão diferente do seu.

— Foi um prazer fazer sua conoscenza, Sr. Blackwood — disse Evelyn, estendendo a própria mão. Seu aperto foi firme, sua mão fria, e por um segundo fugaz, enquanto seus dedos se roçaram, ela sentiu aquele mesmo sobressalto curioso, uma faísca de conexão tão inegável quanto inexplicável.

— O prazer foi inteiramente meu, Lady Evelyn — respondeu ele, seus olhos cinzentos sustentando os dela. Havia uma intensidade em seu olhar que a fazia sentir como se ele visse além da fachada cuidadosamente construída da debutante, até o espírito inquieto interior. — Talvez nossos caminhos se cruzem novamente, em outros pastos.

Não era exatamente uma pergunta, nem uma afirmação ousada, mas uma possibilidade suavemente falada que pairava no ar, carregada de promessa não dita.

— Talvez — ecoou Evelyn, um sorriso tênue brincando em seus lábios. Sabia, com uma certeza que se instalou profunda dentro dela, que isso não era meramente uma frase social educada. Era um desejo, uma esperança, compartilhados naquele momento breve e carregado.

Enquanto ela e tia Augusta dirigiam-se de volta à entrada da galeria, Evelyn não pôde resistir a um último olhar por sobre o ombro. Julian Blackwood ainda estava ali, não olhando mais para a pintura, mas observando-a, sua expressão indecifrável mas inegavelmente convincente. Ofereceu um pequeno aceno, quase imperceptível, antes de voltar-se novamente para o mar turbulento na tela.

Voltando à cacofonia viva da rua de Covent Garden, os sons cotidianos pareciam mais nítidos, as cores mais vívidas do que antes. O breve encontro a abalara, da maneira mais deliciosa. Era como se uma porta tivesse sido momentaneamente entreaberta, oferecendo um vislumbre de um quarto que ela não sabia existir.

— Bem — observou tia Augusta, uma vez que estavam acomodadas de volta na carruagem, sua voz matizada de diversão. — Isso foi consideravelmente mais estimulante do que inspecionar rolos de seda, não concorda?

Evelyn, seus pensamentos ainda demorando em um par de olhos cinza tempestuosos e uma voz grave e ressonante, só pôde assentir. — De fato, tia. Muito mais estimulante.

— Sr. Julian Blackwood — murmurou tia Augusta, batendo um dedo pensativo contra o queixo. — Não é nome que reconheça dos círculos habituais. Um artista, diz ele. E um jovem bastante intenso, não diria?

— Intenso, sim — concordou Evelyn, seu olhar fixo na paisagem urbana que passava, embora mal a visse. — E... interessante.

— Interessante pode ser uma mercadoria perigosa para uma jovem dama em sua posição, Evelyn — disse sua tia, embora não houvesse censura real em seu tom, apenas uma cautela gentil. — Especialmente quando ele possui olhos como aqueles.

Evelyn sabia que sua tia estava certa, claro. 'Interessante' era um desvio do caminho prescrito, um caminho que levava a homens como Lorde Ashworth e Lorde Beaumont, homens de linhagem impecável e futuros previsíveis. Julian Blackwood, com seu potencial manchado de tinta e seu ar de rebeldia silenciosa, certamente não estava naquele caminho.

E ainda, enquanto a carruagem roncava de volta em direção à elegância refinada de Mayfair, em direção às samambaias aguardando e aos rituais cuidadosamente orquestrados de sua vida, Evelyn viu-se sorrindo. Pela primeira vez em muito tempo, a perspectiva da soirée da noite, e de fato dos dias vindouros, parecia um pouco menos previsível, um pouco menos monótona.

Uma semente de curiosidade, talvez até uma minúscula e audaciosa faísca de desafio, fora plantada. Um encontro imprevisto quebrara a monotonia, e Lady Evelyn Harrington, apesar de sua criação e obrigações sociais, via-se inegavelmente intrigada pelo enigmático Sr. Blackwood. Os sussurros de seu próprio coração, longamente adormecidos sob camadas de expectativa, começavam a agitar-se. O mundo cuidadosamente ordenado que habitava de repente parecia um pouco pequeno demais, e o fascínio daqueles 'outros pastos' de que ele falara, maravilhosamente, irresistivelmente, vasto.


CAPÍTULO DOIS: O Enigmático Sr. Blackwood

A soirée dos Harrington, naquela noite, foi, a todos os títulos, um retumbante sucesso. Os fetos estrategicamente colocados por Lady Beatrice de facto encorajaram a circulação, embora se o facto de desencorajarem as "flores de parede" fosse uma questão de debate botânico. Pretendentes, polidos e pré-aprovados, apresentavam-se com charme ensaiado. Lorde Ashworth, resplandecente num novo colete azul-pavão, conseguiu até introduzir o tema da pressão barométrica com o ar de quem revelava uma descoberta emocionante. Contudo, para Evelyn, os lustres cintilantes pareciam uma nuances menos brilhantes, as réplicas espirituosas um nada mais ocas. Os seus pensamentos, como mariposas errantes, insistiam em voltar a uma pequena galeria de arte perto de Covent Garden e a um par de olhos cinzentos tempestuosos.

O Sr. Julian Blackwood. O próprio nome possuía uma certa cadência, uma ressonância que o distinguia da familar ladainha de cavalheiros titulados cujos pedigrees lhe eram tão conhecidos quanto a disposição do Hyde Park. Era artista, dissera ele, com um "conhecimento passageiro" das lutas do seu ofício. A admissão, proferida com aquele humor quieto, quase autodepreciativo, intrigara-a muito mais do que qualquer jactância de terras ou linhagem poderia ter feito.

Durante uma pausa num monólogo particularmente tedioso de Lorde Beaumont sobre as virtudes de um novo tipo de dreno de terras, Evelyn viu o seu olhar derivar para um canto escuro do salão de baile, meio à espera, meio na esperança, de ver o Sr. Blackwood ali de pé, observador de uma tela humana diferente. A noção era absurda, claro. Ele não pertencia ao mundo deles, facto que o tornava ainda mais fascinante.

Mais tarde, fingindo necessidade de ar, encontrou a tia Augusta no terraço, a observar os pares que valsavam lá dentro. — Parece bastante pensativa esta noite, Evelyn — observou a tia, a voz um contraponto suave às distantes notas da orquestra. — O discurso de Lorde Beaumont sobre drenagem finalmente abateu o seu espírito?

Evelyn esboçou um sorriso ténue. — É um assunto de profundidade ímpar, tia, muito como o próprio lord. — Fez uma pausa, depois, num tom afetadamente casual, acrescentou: — Aquele Sr. Blackwood que conhecemos hoje... a senhora disse que o nome lhe era desconhecido?

A tia Augusta voltou-se, a expressão perspicaz mas não desagradável. — De facto. Não é nome que se ouça em Almack's ou se veja nas listas de convidados de Chatsworth. Um artista, recorda-se. Tendem a habitar um firmamento bem diferente, minha querida. Frequentemente mais brilhante, ocasionalmente mais volátil, e quase invariavelmente menos dourado.

— Parecia... inteligente — aventurou Evelyn, escolhendo as palavras com cuidado.

— Inteligente, sim. E intenso, como concordámos. Tem uma maneira de nos olhar, não tem? Como se visse o esboço original por baixo do verniz. — A tia Augusta bateu com o leque na palma da mão. — Homens assim podem ser cativantes, Evelyn. Oferecem um vislumbre de um mundo menos constrangido pela convenção. Mas essa mesma falta de constrangimento pode resultar numa... paisagem imprevisível.

Evelyn compreendeu o gentil aviso tecido nas palavras da tia. Uma paisagem imprevisível era precisamente aquilo de que a sua mãe, e a sociedade em geral, procuravam protegê-la. Contudo, era a previsibilidade dos seus próprios jardins aparados que começava a parecer sufocante.

Os dias seguintes encontraram Evelyn num estado de consciência aguçada. O nome "Julian Blackwood" tornou-se um refrão silencioso no fundo da sua mente. Pôs-se a escrutinar os suplementos de arte nos jornais, uma secção que antes folheava com desinteresse polido. Procurava menções de novas exposições, críticas a artistas emergentes, na esperança de algum fragmento de informação, alguma pista que iluminasse a figura enigmática que encontrara. Os seus esforços, contudo, revelaram-se infrutíferos. O mundo da arte, parecia, era vasto e o Sr. Blackwood, se de facto dele fazia parte além do seu próprio "diletantismo", permanecia bem oculto do seu ponto de vista privilegiado.

Chegou mesmo a considerar, por um momento fugaz e audacioso, uma visita de regresso à galeria de Covent Garden. Talvez pudesse fingir interesse na compra de uma peça, embora o seu conhecimento de arte fosse admitidamente superficial. A ideia de o encontrar de novo, porém, provocou-lhe uma estranha mistura de temor e excitação. Que diria? E, mais importante, o que significaria se os seus caminhos se cruzassem novamente, além do acaso polido do primeiro encontro?

As suas rotinas diárias, outrora meramente tediosas, pareciam agora imbuídas de um novo sentido de frustração. As visitas matinais, os passeios de carruagem à tarde no parque, os jantares cuidadosamente orquestrados — tudo parecia cenas de uma peça cujo guião ela não escrevera e cujas personagens falavam uma linguagem que cada vez menos ressoava com as questões nascentes no seu próprio coração. Até os seus amados livros de poesia ofereciam pouco consolo; os seus heróis românticos pareciam pálidas imitações da intensidade quieta que testemunhara no olhar do Sr. Blackwood.

Numa tarde, enquanto acompanhava docilmente a mãe numa expedição de compras a Bond Street — ostensivamente para escolher um tom de seda verdadeiramente inspirador para mais um vestido de baile — Evelyn viu a sua atenção atraída para a montra de um discreto negociante de arte. Era bem diferente da galeria ligeiramente boémia onde conhecera Julian; este estabelecimento exalava um ar de riqueza tranquila e gosto estabelecido. Exibido com destaque estava uma única paisagem, uma cena escocesa melancólica, as suas escarpas e neblinas renderizadas com uma mestria que até Evelyn reconhecia como magistral.

— Mamã — começou ela, um impulso súbito a enraizar-se —, poderíamos apenas... entrar por um momento? Aquela pintura é bastante impressionante.

Lady Beatrice, cujos gostos artísticos pendiam mais para a retratista lisonjeira e arranjos florais serenos, ergueu uma sobrancelha perfeitamente esculpida. — Uma galeria de arte, Evelyn? Agora? Temos mais três lojas para visitar, e a Sra. Abernathy espera-nos para o chá às quatro. — O tom implicava que contemplar arte, particularmente arte não programada, era uma distracção frívola do sério negócio de manter o calendário social.

— Levará apenas um momento — insistiu Evelyn, uma nova determinação, nada característica, na voz. — A tia Augusta diz que se deve sempre procurar ampliar os horizontes.

Relutantemente, Lady Beatrice aquiesceu, a expressão a indicar claramente que considerava aquilo um pequeno desvio na conduta por norma sensata da filha. Lá dentro, a galeria era silenciosa e profundamente alcatifada. Um cavalheiro aprumado, de cabelos prateados e sorriso condescendente, aproximou-se delas. Evelyn, sentindo-se de súbito fora do seu elemento, murmurou algo sobre admirar a paisagem da montra.

Enquanto a mãe trocava gentilezas polidas, se ligeiramente perplexas, com o proprietário, Evelyn examinou as outras pinturas expostas. Eram competentes, certamente, retratando grandes propriedades, animais nobres e personagens dignas. Havia técnica, mas para os sentidos recentemente despertos de Evelyn, parecia haver uma distinta falta do espírito cru, indomado, que vira na paisagem marítima da outra galeria, a pintura que Julian Blackwood admirara.

Reunindo coragem, dirigiu-se ao proprietário. — Representa, por acaso, algum... artista mais novo? Talvez com uma abordagem mais moderna?

O sorriso do cavalheiro apertou-se, quase imperceptivelmente. — Minha jovem senhora — disse ele, o tom matizado de gentileza condescendente —, orgulhamo-nos de representar artistas de mérito estabelecido e... reputação sólida. A "escola moderna", como alguns lhe chamam, pode ser um tanto... errática. Nem sempre um investimento adequado, se me compreende o sentido.

O seu sentido era perfeitamente claro. Julian Blackwood, com as suas "lutas" e os seus olhos intensos e perscrutadores, provavelmente não encontraria refúgio ali, entre esses fornecedores de arte polida e rentável. A constatação apenas serviu para adensar o seu mistério, para o colocar ainda mais fora dos limites previsíveis do seu mundo.

Ao saírem da galeria, Lady Beatrice não fez comentários sobre o breve desvio artístico, já preocupada com a premente questão de se o pervinca ou a lavanda seriam mais adequados para o próximo baile dos Ashworth. Evelyn, contudo, sentiu uma sutil mudança dentro de si. A sua breve, trapalhona tentativa de buscar o mundo do Sr. Blackwood, por mais indireta que fosse, fora recebida com a resistência de veludo da convenção. Era um lembrete das barreiras invisíveis, contudo formidáveis, que separavam as suas esferas.

O enigma do Sr. Blackwood crescia a cada dia que passava. Era um silêncio na sinfonia da sua vida social, um ponto de interrogação no final de cada frase perfeitamente formulada, totalmente entediante, proferida pelos seus admiradores titulados. Representava o desconhecido, o não-escrito, um mundo onde a paixão e a luta não eram segredos vergonhosos mas a própria essência da criação.

A tia Augusta, com a sua percepção aguda, notou o ar contido de Evelyn e o seu interesse invulgar nas colunas de arte. — Ainda a remoer no nosso artista intenso, estamos, criança? — perguntou certa tarde, enquanto estavam sentadas no seu agradavelmente desarrumado salão matutino, um bem-vindo contraste com a perfeição formal da Casa Harrington.

Evelyn não tentou negar. — Ele era... diferente, tia. Não havia artifício nele.

— O artifício é a moeda do nosso mundo, Evelyn — disse a tia Augusta, a voz gentil. — Compra aceitação, mantém a ordem, e forra muitos um ninho confortável. Prescindir dele totalmente é um caminho corajoso, mas muitas vezes solitário. — Fez uma pausa, seleccionando um biscoito do prato. — E o que é, neste "diferente" Sr. Blackwood, que tanto captura a sua imaginação? É o artista, ou o homem?

Evelyn considerou a questão. — Não sei — admitiu honestamente. — Talvez seja porque ele parece ser ambos, autenticamente. Falou do "espírito indomado do oceano", não do seu valor de mercado. Parecia ver as coisas, verdadeiramente vê-las. A maioria das pessoas que conheço apenas... olha.

— Uma qualidade perigosa num homem — murmurou a tia Augusta, embora um sorriso ténue lhe brincasse nos lábios. — Ver verdadeiramente uma jovem dama da sociedade pode ser ver para além da debutante, para além do bom partido, até à mulher em si. E o que poderá ele ver em si, Evelyn, que os outros ignoram?

A pergunta pairou no ar, inquietante e profunda. Evelyn sempre sentira que havia mais nela do que a persona cuidadosamente construída que apresentava ao mundo. Tinha uma mente que ansiava por desafio intelectual, um espírito que se revoltava contra a interminável ladainha de obrigações sociais, e um coração que ansiava por uma conexão mais profunda do que a conversa polida sobre chá morno. Seria possível que Julian Blackwood, naquele breve encontro carregado, tivesse vislumbrado algo desse eu oculto?

O pensamento era ao mesmo tempo exhilarante e aterrorizador. Se ele a vira, verdadeiramente vira, então talvez ela, também, tivesse captado um vislumbre do homem autêntico por trás do exterior reservado. Um artista. Um pensador. Um homem que "dabituava com tintas" e apreciava as "lutas dos outros".

As suas tentativas de saber mais sobre ele através de canais convencionais tinham falhado. Os diretórios da nobreza e do pariato, naturalmente, não continham menção a um "Blackwood, J., Artista". Ele existia fora daqueles domínios bem documentados. Era, parecia, um homem que se tinha de encontrar, não apenas procurar.

Esta elusividade, longe de desanimar Evelyn, apenas atiçou as chamas da sua curiosidade. O Sr. Julian Blackwood estava rapidamente a tornar-se menos um mero conhecido e mais um símbolo — um símbolo de uma vida vivida com paixão e propósito, uma vida starkmente diferente da gaiola dourada da sua própria existência. Os sussurros do seu coração, outrora tão ténues, estavam a tornar-se mais ousados, instando-a em direção àqueles "outros pastos" de que ele falara, pastos que pareciam tentadoramente fora de alcance, mas cintilavam com um fascínio inegável. Quanto mais enigmático ele permanecia, mais determinada ela ficava a compreender o homem que, com um único olhar e algumas palavras bem escolhidas, abalara o seu mundo e despertara uma saudade que não sabera possuir. Os capítulos cuidadosamente ordenados da sua vida de súbito pareciam demasiado previsíveis, e as páginas não escritas sobre o Sr. Blackwood acenavam com uma promessa irresistível do desconhecido.


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